janeiro 12, 2006

Um Relatório com muitas Leituras

A forma como os meios de comunicação deram a conhecer ao público o estudo ontem apresentado pela Comissão para a Avaliação dos Hospitais SA é paradigmática de que algo vai mal na comunicação social e que muitos jornalistas não conseguem compreender que a sua profissão, pelo impacto público que tem, deve forçosamente cumprir as regras de deontologia. O relatório é o mesmo. Todavia os relatórios do relatório não só são diferentes como, em alguns casos, diametralmente opostos.

Por exemplo, O DN escreve que: Os portugueses ficaram prejudicados com a transformação dos hospitais públicos em hospitais SA? Segundo uma avaliação ontem apresentada, a resposta é não. A criação dos hospitais-empresa teve um "impacto nulo" no nível de qualidade e no acesso aos cuidados de saúde. Mas fez aumentar a eficiência com os mesmos custos, estas unidades passaram a produzir mais. E, em alguns casos, melhor.

Em contrapartida, o Jornal de Negócios é mais céptico, e titula: Hospitais SA são mais eficientes mas têm muitas falhas graves, embora depois escreva que “os hospitais transformados em sociedades anónimas são globalmente mais eficientes do que os do Sector Público Administrativo. Mas a aplicação do modelo empresarial no terreno está ainda muito longe dos resultados prometidos

Enquanto isso, O Público é mais encomiástico e titula que os Hospitais SA são mais eficientes sem prejudicar os cuidados, escrevendo a seguir que mais de 2.300 mortes seriam evitadas anualmente se todos os hospitais públicos apresentassem a ligeira redução de taxa de mortalidade em internamentos registada nos Hospitais SA. Mais adiante escreve que têm custos 9% mais baixos e relata que os autores do estudo frisaram que «em geral, os hospitais com mais qualidade (menor mortalidade) têm custos mais baixos».

Ou seja, escrevo eu, os custos e a mortalidade estão relacionados positivamente. Um aumento de custos não significa melhores cuidados, mas sim uma maior desorganização e desleixo, como aliás já aqui escrevi mais que uma vez.

Em contrapartida, o Correio da Manhã escreve em letras gordas que “O estudo ontem apresentado pela Comissão para a Avaliação dos Hospitais SA é arrasador. Aponta falhas várias, que passam pela atribuição de subsídios aos hospitais menos eficientes, que se tornaram ainda mais ineficientes por problemas no modelo de financiamento e de gestão e ainda erros graves nas políticas de recursos humanos
Mas depois de descrever o relatório como «arrasador», escreve algo verdadeiramente muito confuso: «Apesar das falhas, o estudo revela alguma eficácia, o que vem ao arrepio de outro relatório, divulgado em Novembro de 2005, pela Direcção-Geral da Saúde, que já se demarcou do mesmo, justificando que não era uma posição oficial. Contudo, concluía que os hospitais com gestão empresarial são menos eficientes do que os que mantiveram o estatuto público.». Ou seja, a eficácia, que a jornalista foi obrigada a revelar, vinha todavia ao arrepio de um relatório anterior que a jornalista enfatiza.

Talvez o que explique isto tudo seja a prosa de Avillez Figueiredo, no Diário Económico, quando escreve: “As notícias do bom desempenho dos chamados hospitais empresa são boas, e sublinham a excelente interpretação que o ministro da Saúde, Correia de Campos, faz do papel do Estado na sensível área dos cuidados públicos de saúde. Mas elas podiam ser ainda melhores se o assunto não fosse tabu em Portugal. Mas é. E sendo, continua fixado a premissas que arrastam decisões importantes. Mas assunto é sério, pelo que exige que dele se retirem demagogias ideológicas. O que obriga a um avanço por etapas.” E escreve adiante que «os cuidados de saúde não são privilégio da esquerda ou da direita»

Na verdade, quando face a um mesmo relatório aparecem versões jornalísticas tão diferentes e, no caso do Correio da Manhã, absolutamente contraditória com as restantes, é porque este assunto é tratado com «demagogias ideológicas» e que há jornalistas que confundem notícias e jornalismo de factos com “jornalismo de causas”.

Publicado por Joana às 10:48 PM | Comentários (47)

novembro 02, 2005

Censura ou Coragem Política?

A posição tomada por Rui Rio relativamente às relações do executivo camarário com a comunicação social criou algum burburinho. Ora, pelo que li, Rui Rio não fechou a porta ao fornecimento de informações e de respostas aos jornalistas. Apenas pretendeu estabelecer regras que assegurassem que as informações ou as respostas veiculadas pela autarquia fossem aquelas que efectivamente apareceriam na comunicação social. Para atestar essa conformidade haveria suportes escritos ou em vídeo e nunca interpretações jornalísticas, por vezes mais que duvidosas.

O que Rui Rio afirmou, segundo a imprensa, foi que "recorrerá, preferencialmente, a mensagens escritas através da publicação no site oficial da Câmara e de difusão pelos media"; que as entrevistas serão "acordadas" com a Imprensa, mas apenas por escrito, "com regras previamente definidas". Isto porque, segundo Rui Rio, "os entrevistadores são donos das perguntas e os entrevistados são donos das respostas".

A comunicação social tem-se inebriado por protagonizar o que designou por 4º poder. Os políticos tiveram muita culpa na génese desta situação, pois usaram a comunicação social para criarem factos políticos frequentemente baseados em falsidades ou em meias verdades. Acabaram por ser vítimas da sua própria insídia. A sua relação perversa com a comunicação social e a sua progressiva incompetência tornou-os vulneráveis à comunicação social e acobardou-os perante o monstro que haviam ajudado a gerar.

É verdade que uma notícia que tenha um suporte escrito documentável não evita a manipulação da informação através de títulos que são contraditórios com o corpo da notícia. É uma técnica vulgarmente utilizada, não necessariamente por motivos partidários ou ideológicos, mas as mais das vezes pela simples ambição de aumentar as audiências através de títulos sensacionalistas.

Reportando-me à parte factual da notícia, sem entrar em motivações obscuras ou em teorias da conspiração, considero corajoso um político dizer não ao poder de manipulação dos factos em que a comunicação social se especializou. E de o dizer claramente e não através de pressões camufladas que podem ter o objectivo de salvaguardar o rigor mas outrossim o de falsificar os factos.

Todos teríamos a ganhar com esta acção pedagógica aberta e transparente. Principalmente a comunicação social que pretende ser de referência. Escusava de cair, como acontece às vezes, no pecado da gula ... da falsificação das notícias para atrair leitores ou telespectadores.

Publicado por Joana às 02:33 PM | Comentários (55)

setembro 11, 2005

Adoração a Hermes

Há pessoas e instituições que foram sacralizadas pelos Deuses ou pelos seus representantes. Há todavia uma que tem a característica curiosa de ter sido beatificada e santificada por ela própria: a comunicação social. A Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) considera que a decisão do Grupo Espírito Santo (GES) de cortar a publicidade na imprensa do grupo Impresa constitui uma tentativa de pressão. Todavia reconheceu que “Expresso não acolheu o contraditório” quando elaborou as notícias sobre o “mensalão” do Brasil, apesar de ter "informação que lhe havia sido fornecida a tempo pelo grupo financeiro". Ou seja, o Expresso prevaricou nas regras deontológicas, mas o GES deveria continuar a levar-lhe as oferendas prescritas nos Mandamentos e que constituem matéria de devoção incontornável.

Os Deuses não se discutem. Mesmo que incorram em alguma diabrura (e sabe-se como os Deuses clássicos eram travessos entre si e com os mortais), a missão dos mortais é continuar a adorá-los e garantir a sua benevolência e bons auspícios através de oferendas. Não o fazer constitui um pecado, reconhecido pela lista de Mandamentos da AACS. O castigo? Se os mortais não consagram a sua devoção pelas oferendas, os Deuses vingam-se pela maledicência. Hermes não era apenas Deus da retórica e das mensagens olímpicas, era também o Deus dos ladrões.

Publicado por Joana às 08:41 PM | Comentários (49)

setembro 05, 2005

Catarse Katrina

No nosso pequeno mundo dos aspirantes a fazedores de opinião, o furacão Katrina tem servido como catarse colectiva da nossa impotência e da nossa mesquinhez. Como não sabemos, não queremos e não podemos resolver os nossos problemas, empenhamo-nos em digladiarmo-nos sobbre os problemas dos outros. Os defensores do estatismo “lêem” o filme da catástrofe tentando extrair argumentos para criticar o modelo estatal americano, fingindo esquecer que Portugal tem um Estado “quase escandinavo”, pela sua dimensão, mas “quase latino-americano” pelos serviços que presta à colectividade. Eficaz em pilhar os recursos da sociedade, mas ineficaz em lhes prestar os serviços que os contribuintes pagaram.

Ataca-se levianamente a alegada lentidão das autoridades americanas, esquecendo que se uma catástrofe com uma amplitude de proporções semelhantes tivesse ocorrido em Portugal, ficaríamos à mercê de nós próprios. O nosso SNS é ineficiente mesmo em situações de normalidade, atendendo, apenas e tardiamente, aqueles que não têm possibilidades de usar outros recursos; numa catástrofe teríamos que ser nós a cuidar de nós próprios e dos nossos semelhantes. A nossa polícia é ineficiente, mesmo num clima de normalidade; em caso de catástrofe teríamos que ser nós a velar pela segurança de pessoas e bens. As nossas forças armadas são quase inexistentes e já não têm serviços de engenharia; em caso de catástrofe teríamos que esperar pelo socorro de forças estrangeiras. Os incêndios, em Portugal, são apagados pelos bombeiros voluntários, que as empresas disponibilizam, e com a ajuda de meios exteriores, enquanto os profissionais estão aquartelados; em caso de catástrofe teríamos que ser nós a tratar da protecção civil, da nossa protecção.

Portugal está completamente inerme perante qualquer catástrofe que ocorra. E os adoradores do Moloch regozijam-se que a acção das autoridades americanas não foi tão lesta quanto deveria ser e que isso é fruto do reduzido peso do Estado americano (cerca de 70% do nosso) e da ideologia que tornou esse Estado tão débil, quando deveriam estar preocupados pelo facto do nosso Estado ser proporcionalmente muito maior que o americano e não ter, nem de perto nem de longe, a capacidade de actuação que as autoridades americanas tiveram.

Será que essa gente pensa no que poderia acontecer em Portugal com uma catástrofe de proporções semelhantes? O que é perverso nas discussões sobre o Katrina e o seu rescaldo é que os adoradores do Moloch apenas discutem a dimensão do Estado e a ideologia que está na base das opções que lhe estiveram subjacentes. Nenhum se questionou se estaríamos preparados para uma catástrofe idêntica. Nada. Apenas arremesso de frases sobre a “ineficiência” das autoridades americanas. Os adoradores do Moloch não estão interessados em extrair lições para a melhoria da nossa capacidade de resposta. Apenas estão interessados em defender uma concepção de Estado. Uma concepção perversa, pois que é um Estado “Social”, pela sua dimensão, mas “A-Social” ou “Anti-Social” pelo seu funcionamento.

Há 2 anos, a França, um dos paradigmas do Estado Social europeu, teve cerca de 15 mil mortos pela vaga de calor, certamente muitos mais que as vítimas do Katrina. O governo e as principais autoridades estavam de férias; não me consta que as tivessem interrompido. É certo que foram mortes pouco mediáticas, e não localizadas. É certo que, à beira da morte, as vítimas não escreveram nas janelas e nos telhados “help us”, perdão, “au secours” nem se alinharam na estrada gritando em coro a mesma frase para as câmaras de televisão. Não podiam, estavam dispersos. É certo que as câmaras de TV não puderam captar que era gente das classes mais desfavorecidas. Só puderam captar estatísticas, e as estatísticas não comovem.

A controvérsia do Katrina é Portugal (ou pelo menos o segmento social que intervém na comunicação e blogosfera) no seu pior.

Publicado por Joana às 11:50 PM | Comentários (129)

agosto 02, 2005

Economia Social

O Sindicato dos jornalistas propôs ontem aos trabalhadores dos jornais O Comércio do Porto e A Capital a criação de uma cooperativa que permitisse manter ambas as publicações nas bancas. O SJ afirmou que se trata de um projecto inédito na comunicação social portuguesa, no qual se «opõe a lógica da economia social à capitalista, que falhou a sua missão». Parece-me uma ideia excelente. Onde estará melhor salvaguardada a independência dos jornalistas perante o poder económico senão tomando eles o seu destino nas suas próprias mãos?

Organizando-se os jornalistas em cooperativa de trabalhadores, põem fim a uma promiscuidade perversa entre o capital e o trabalho. E, para aprofundar a lógica da economia social como contraponto à lógica da economia capitalista, as futuras cooperativas deveriam igualmente renunciar à publicidade (excepto, obviamente, publicidade a instituições ou eventos de carácter unicamente social). A publicidade é uma arma de 2 gumes: pode ser usada pelo poder económico contra a comunicação social, para esta não publicar determinadas notícias, ou pode ser usada pela comunicação social, contra o poder económico, a troco de não publicar determinadas notícias.

O SJ afirmou que se trata de um projecto inédito. Porque será que ainda ninguém se tinha lembrado disto?

Publicado por Joana às 06:06 PM | Comentários (53)

julho 23, 2005

O Rolo Compressor

E uma jornalista debaixo dele

Foi com esse programa que Sócrates obteve a maioria absoluta. Logo, como Portugal é uma democracia, é com esse programa que Sócrates deve governar e não com as opções de Campos e Cunha, opinou uma jornalista do Público, este sábado, indignada com as dúvidas dos economistas sobre a bondade da demissão. Sócrates devia ler este artigo, pois indica-lhe o caminho.

Sócrates ganhou as eleições prometendo não aumentar os impostos – aumentou-os; Sócrates ganhou as eleições prometendo criar mais de uma centena de milhares de novos empregos – o aumento do desemprego tem-se acelerado, e quando acabar o efeito sazonal do Verão, essa tendência será mais evidente; Sócrates ganhou as eleições prometendo acabar com as “trapalhadas” de PSL – nunca houve tanta trapalhada em tão pouco tempo. Sócrates ganhou as eleições prometendo … e tem saído tudo ao contrário … era tudo mentira.

Neste entendimento, e para ser coerente com a opiniosa e furibunda articulista do Pública, Sócrates terá que demitir imediatamente Sócrates, para não ver a sua autoridade posta em causa. E mais que por uma questão de autoridade posta em causa, Sócrates tem de demitir Sócrates por razões de coerência política.

São José Almeida, alteromundista, sente-se cada vez mais isolada nas suas concepções lunáticas do funcionamento económico e social. O seu artigo é o grito de dor e desespero de alguém diante do rolo compressor do empecilho dos factos, que avança inexorável sobre ela. É um grito in articulo mortis. Confunde liberalismo económico com as sanções a aplicar à Alemanha no final da I Guerra Mundial. Arremete furiosa contra os que papagueiam as mesmas soluções, as mesmas análises, as mesmas teorias … sem admitir que há alternativa., sem mostrar que conhece qualquer alternativa, para além de vagos lampejos lunáticos.

Papaguear é debitar um chorrilho de palavras, sem qualquer fundamentação sólida. O único facto apresentado pela articulista são as sanções a aplicar à Alemanha no final da I Guerra Mundial. É um facto que se situa a 3 mil kms e a 86 anos de distância e que lhe caiu no texto inexplicavelmente. Poderia usá-lo com igual pertinência para qualquer outra circunstância: por exemplo, para justificar o mensalão do PT de Lula, ou os maus resultados dos exames de Matemática, ou a gripe das aves do sueste asiático.

Neste entendimento, o papagaio é São José Almeida. E a cassete que papagueia já tem mais de cem anos e gastou-se pela usura do tempo e pelo rolo compressor dos factos.

Publicado por Joana às 07:34 PM | Comentários (69)

julho 10, 2005

O Inferno já não é o que era

Ontem um enviado da TVI a Londres exclamava extasiado:«Isto é um verdadeiro Inferno, diria mesmo mais ...» fez um hiato de alguns segundos em busca de algo mais tétrico que o Inferno e continuou «... parece um filme de terror!».
Quando o horror do Inferno é ultrapassado por um filme cujo DVD se aluga no vídeo clube defronte, por 1€, é porque o Inferno está muito desvalorizado. Por isso se peca tanto. Por isso nos afundámos mais no pecado que em Sodoma e Gomorra. Mas para quê preocuparmo-nos? Após o desfrute de qualquer prazer pecaminoso, por mais intenso e pecaminoso que seja, basta 1€ para nos auto-flagelar, vivendo e saboreando horrores piores que o Inferno. Queres viver um terror maior que o Inferno? Toma 1€ e vai ali defronte alugar Pesadelo em Elm Street 12.

Publicado por Joana às 06:00 PM | Comentários (40)

julho 07, 2005

Londres sob Bombas

A Inglaterra, our oldest ally, sofreu hoje de manhã um ataque terrorista. Ainda não há números definitivos de baixas. O facto mais marcante foi a calma, a serenidade e a determinação com que os britânicos encararam o ataque terrorista. Outro facto que impressionou os nossos enviados foi a forma discreta e calculada como as autoridades foram fornecendo as informações, de forma a que o pânico não se instalasse entre a população.
Achei surpreendente que os nossos enviados tivessem ficado impressionados por essa reserva britânica. Se fosse cá, seriam os próprios jornalistas a instalarem o pânico mais absoluto e irracional entre a população, por mais discretas que as nossas autoridades tentassem ser.

Publicado por Joana às 09:08 PM | Comentários (56)

julho 06, 2005

Matéria para tese em Sociologia Política

Está a ocorrer no nosso país um fenómeno sociologicamente interessante e politicamente inquietante, ou vice-versa. Refiro-me à emergência de políticos politicamente incorrectos, alguns eticamente pouco recomendáveis, mas que enfrentam os meios de comunicação em jeito de desafio, desassombradamente, e que recolhem um elevado apoio popular. Há dias, numa entrevista, Avelino Ferreira Torres deixou o jornalista da SIC, Rodrigo Guedes de Carvalho, à beira de um ataque de nervos. E havia todas as condições para suceder o oposto. Em primeiro lugar, são os jornalistas que estão habituados a pôr os políticos na defensiva; em segundo lugar havia factos (haveria?) que seriam embaraçosos para o entrevistado; em terceiro lugar o entrevistado está numa corrida eleitoral e deveria ser cauteloso, como manda a tradição.

Sucedeu tudo ao contrário: quem se colocou na ofensiva foi o entrevistado; quem passou displicente pelos possíveis embaraços, foi o entrevistado; quem não teve “papas na língua”, foi o entrevistado. Rodrigo Guedes de Carvalho deve ter ficado a Lexotan.

Com Alberto João Jardim sucede o mesmo. Diz as coisas mais desagradáveis aos jornalistas do “Contenente” e o máximo que eles conseguem é … fazer queixinhas ao PR e pedir-lhe que intervenha. Não sei exactamente como e para quê.

Os nossos bem-pensantes vêm imediatamente a terreiro criticar, com maior ou menor veemência (consoante a sua posição partidária), as intervenções mais “ousadas” daquelas duas figuras (e de outras menos evidentes). Do ponto de vista de pedagogia política não vejo mal nisso. Mas também não vejo vantagens … é perfeitamente inútil. O que os nossos bem-pensantes deveriam fazer era estudar as raízes sociológicas e políticas do êxito daqueles comportamentos: granjear apoio popular e meter na ordem a prosápia dos meios de comunicação, que estão convencidos que detêm o principal poder no país, que todos os devem temer e que são os grandes educadores do povoléu.

Aquelas duas figuras são a prova que a genuflexão dos políticos perante a comunicação social apenas lhes retira prestígio. As pessoas querem líderes fortes e desassombrados que chamem os bois pelos nomes. Desdenham gente que reverencia jornalistas, mendigando apoio mediático. Com a agravante que quanto mais tentam usar esse poder, mais facilmente são destruídos por esse mesmo poder, como aconteceu com Santana Lopes e irá acontecer com outros.

É bom que apareça gente desassombrada e segura de si, que meta os jornalistas na ordem. É pena que sejam estes dois.

Publicado por Joana às 11:35 PM | Comentários (71)

julho 03, 2005

Conversas de Fim de Semana

1 – O Prof Marcelo foi ectoplasmado pela RTP1, ou melhor, pela Caverna da Ana Sousa Dias. Inicialmente, eu julgava que aquelas figuras refractadas, alegadamente entrevistadas pela Ana Sousa Dias na RTP2, eram epifenómenos resultantes de diversas e inexplicáveis refracções que ectoplasmavam, no fundo da Caverna, arquétipos desconhecidos e que queriam permanecer ignotos. Verifiquei entretanto que não. O Prof Marcelo foi irremediavelmente estropiado por uma poderosa óptica anisótropa que refracta com gradientes de tal forma variáveis com as direcções de propagação, que torna qualquer realidade, por mais reluzente, numa amostra sem valor. O Prof Marcelo passou de fenómeno a epifenómeno.

2 - A Arte da Fuga ou mais propriamente, Die Kunst der Fuge ou, de acordo com o catálogo, o BWV 1080 (que raio de nome!? ... faz-me lembrar outros nomes estranhos e inexplicáveis, como ... Semiramis) chegou ao fim do 1º Contraponto. Parabéns. Espera-se que os próximos Contrapontos, Cânones , etc., sejam igualmente executados a rigor e com mestria.

3 – A vida rural tem as suas virtudes, mas as suas limitações. Uma delas é o consumo da fruta. Em Dezembro são as tanjas e tangerinas. Entre Janeiro e Maio é comer laranjas às cabazadas. Ainda deixámos algumas nas árvores, mas já estão um pouco secas (mas ainda se comem ... às vezes). Em Maio temos que dar conta das nêsperas, que não se aguentam mais de 3 semanas. Ficamos amarelos de tanta nêspera. Os miúdos têm que andar de T-shirts castanho-amareladas, porque põem nódoas que não saem. Depois vêm os damascos, que também aguentam pouco ... toca a comer. Agora são as ameixas das mais variadas espécies que estão a exigir que as comam. Entretanto os pêssegos e os pêssegos carecas, que são conhecidos por nectarinas nos hipermercados, começam a ficar maduros de impaciência. Depois outras virão, como os melões e melancias lá para Agosto, Setembro, as uvas em Setembro, Outubro e os diospiros a seguir. A nossa dieta frutífera é regulada sazonalmente. Impõe-nos responsabilidades e restrições (sazonais, não quantitativas), mas dá-nos qualidade. Sabe a fruta. Mesmo quando tem bicho. Porque se o bicho a escolheu, é porque ela era de boa qualidade.

4 – O facto dos sucessivos governos não andarem com os projectos para a frente tem as suas vantagens. O governo seguinte não precisa de ter imaginação – vai aos arquivos, arrebanha tudo o que ficou por fazer e anuncia a extensa lista (cada vez mais extensa) com estrépito público. Quanto àqueles projectos que obviamente não são para fazer, como, por exemplo, a Ota, anuncia que vai fazer estudos. Há projectos que foram estudados, re-estudados, tres-estudados e tresmalhados. Têm feito a felicidade e dado sustento a gerações de consultores.

Publicado por Joana às 11:15 PM | Comentários (63)

julho 01, 2005

Deixem-nos Trabalhar

Os jornalistas trouxeram a público o desespero que, segundo eles, lavra na sociedade portuguesa. «Os pais andam à nora e não sabem como ajudar os seus filhos na educação da sexualidade» ...Pede-se a intervenção urgente da Escola, pois os pais «devem conhecer previamente o programa e quem o vai leccionar». Alguém da Escola Superior de Educação de Lisboa garante: «Os pais não sabem ou não abordam essas questões e, se abordam, fazem-no de forma ligeira, eventualmente preconceituosa». Reina confusão sobre quem, como e porquê, vai «escolher os currículos».

Sempre pensei que esta matéria era aquela que se aprendia mais facilmente, que era aquela cuja aprendizagem, aliando a teoria à prática, dava mais prazer e satisfação, que se estudava pela noite dentro sem necessidade de recorrer à cafeína ou a anfetaminas para combater o sono e o tédio, onde se conseguiam fazer revisões diárias da matéria dada, anos a fio, descobrindo sempre novas e interessantes abordagens e que não exigia nenhuma qualificação especial para admissão à discência. Basta ver que mesmo analfabetos, como os trogloditas pré-históricos, conseguiram algum traquejo nesta matéria, como se prova pelo facto estarmos hoje aqui.

Calculo mesmo que os potenciais discentes, aqueles que jornalistas e educadores querem salvar das trevas da sexualidade, já devem saber muito mais sobre essa matéria que os potenciais docentes. Vai haver muitas surpresas.

Parece simples. É na água que se aprende a nadar. Como dizia um ex-PM aos jornalistas, sempre ignorantes destas coisas práticas: «Deixem-nos Trabalhar».

Publicado por Joana às 05:59 PM | Comentários (40)

junho 09, 2005

A Teoria da Conspiração

E a Prática da Conspiração

Um dos modelos explicativos mais acarinhados pelas ideologias totalitárias e pelos intelectuais que se deixaram seduzir por elas é o da Teoria da Conspiração. A sociedade é dividida em dois grupos antagónicos – os dominadores (ou os poderosos) e os dominados – e os poderosos estão em permanente conspiração para levarem os dominados à miséria e ao aviltamento. Esta “posição” social não tem nada a ver com a correlação de forças do poder político: A Nomenklatura que exerceu um poder totalitário nos regimes comunistas, pertencia aos “dominados”, dizia-se uma permanente vítima da conspiração dos “poderosos” e criou os Gulags para condenar à morte lenta os “poderosos” conspiradores. E os intelectuais dos países ocidentais certificavam essa conspiração em movimentos de opinião, comunicações emocionadas ou em teorias de absoluto rigor conceptual em jornais, revistas e livros.

Essa conspiração é tanto mais credível quanto menos visível. Por exemplo, o patronato está em permanente conspiração para levar os trabalhadores à miséria. Quando o patronato não emite opiniões, está em conspiração silenciosa; quando um dirigente empresarial emite alguma opinião sobre as relações laborais, é o clamor público: Nós bem avisámos … mais uma ofensiva brutal inserida na insidiosa conspiração dirigida contra os trabalhadores.

No caso da comunicação social há uma conspiração permanente para lhe cercear as liberdades. Os jornalistas podem inventar factos, mentir descaradamente ou distorcer a realidade, mas quando alguém contesta o seu direito à recriação da realidade, é o alvoroço público: lá estão a conspirar contra as liberdades democráticas! Curiosamente, quando essa contestação é feita ao nível da arruaça, os jornalistas ficam semi-afónicos e correm a pedir a protecção do PR, a fazer queixinhas. A Teoria da Conspiração baseia-se na não evidência de alegados factos. Quando confrontada com o real vernáculo, a Teoria da Conspiração fica desarmada.

Se a Teoria da Conspiração foi inventada pelos regimes totalitários e todos os aspirantes ao totalitarismo e à ditadura: guerras da religião, guerra civil inglesa, Revolução Francesa (onde os jacobinos a levaram à malvadez mais requintada), movimentos sindicais, revolução e regime bolchevique, nazismo alemão e todos os regimes fascistas e comunistas em geral, onde essa teoria serviu para massacres e genocídios, etc., etc., há uma permanente prática conspirativa que, ela sim, tem sido em extremo danosa para a prosperidade da sociedade.

Essa Prática da conspiração é quotidianamente exercida por todos os lobbies que põem os seus “interesses corporativos” à frente do interesse de todos e que só aceitam reformas e medidas estruturantes, desde que apenas sejam aplicáveis aos outros. É quotidianamente divulgada por todos os meios de comunicação e tem direito a horário nobre.

É essa prática conspirativa que tornou o SNS num sorvedouro de dinheiro e num prestador de serviços cada vez mais ineficiente. São os lobbies dos médicos e os lobbies dos enfermeiros contra a sociedade e uns contra os outros. E os lobbies são tanto mais poderosos quanto menos visibilidade qualificativa têm. Por exemplo, o caos organizativo e a nova derrapagem das listas de espera devem ser levados mais a crédito das corporações dos enfermeiros que das dos médicos.

É a prática conspirativa que tornou o Sistema Público de Educação o mais caro da Europa e o mais ineficiente. Nela têm desenvolvido os seus talentos os funcionários do ME, os professores, na docência ou destacados no ME e dependências, e todos os auxiliares de educação. Todos têm concorrido para levar o nosso sistema de ensino ao estado lamentável em que ele se encontra.

É a prática conspirativa que tornou o nosso sistema judicial um caso paradigmático de obsolescência. Tem sido uma actividade onde todos os agentes envolvidos se têm empenhado, mas os legisladores, os arquitectos dos procedimentos de funcionamento da nossa justiça, merecem um lembrete especial. Foi devido à sua argúcia conspirativa que o sistema ficou completamente entupido e Portugal se tornou um país de caloteiros inimputáveis.

E essa prática conspirativa alarga-se a todo o aparelho do Estado, registos, notariado, fisco, segurança social, autarquias, etc..

Mas essas práticas conspirativas são accionadas e apoiadas exactamente pelos mentores das Teorias da Conspiração: a Esquerda “à esquerda” e os Sindicatos. São os teóricos da Conspiração os principais agentes e mentores da Prática da Conspiração que levou o nosso país à beira do abismo.

Aqueles que passam a vida a falar da Teoria da Conspiração, estão simplesmente a lançar uma nuvem de fumo sobre a sua permanente prática conspirativa. Fabricam conspirações dos outros, enquanto conspiram às claras contra a nossa sociedade, a sua prosperidade e o seu futuro. Contra a prosperidade e o futuro daqueles que dizem representar.

Publicado por Joana às 07:09 PM | Comentários (108)

maio 12, 2005

O Desespero do Artista

Entristece-me ver tanta incompreensão em alguns quadrantes. Que possibilidades tem um jovem realizador de se afirmar no nosso país? Pelo talento? Mas se todos têm talento, reconhecido por 2 ou 3 amigos, pelo Carlos Pinto Coelho e pelo Ministério da Cultura que os subsidia! Pelas audiências? Mas se tal lhes está vedado pela sua procura da dimensão estética absoluta e da plasticidade elástica oscilando entre o mais e o mais. Mais grave: se a perversidade da fortuna lhes trouxer audiências ficam definitivamente na lista negra da Corporação dos Realizadores, que é inexorável perante a indignidade que representa o grande público gostar de uma obra de arte. Tal é uma contradição nos termos: se é Arte, o grande público necessariamente não gosta; se o grande público gosta, não é, definitivamente, Arte.

Que caminhos restam então ao Artista Realizador para se tornar conhecido e continuar Artista? Terá que ser algo com impacte mediático. A Quinta das Celebridades é impossível: ainda não é uma celebridade e ficaria irradiado da Corporação dos Artistas se fosse para lá, mesmo disfarçado de vaca. Aparecer no programa da Ana Sousa Dias? Mas se há dúvidas sobre se aquela gente existe mesmo! Para os poucos que, num zapping distraído, o vêem, são apenas ectoplasmas refractados e entediantes. Aliás, o próprio Prof. Marcelo está em vias de se tornar num ectoplasma ...só lhe faltam os espelhos que já devem ter sido encomendados.

São dolorosos e insondáveis os caminhos de um Artista Realizador para atingir o esplendor mediático. Há caminhos que trazem uma enorme notoriedade, mas infelizmente pontual: imolar-se pelo fogo, atirar-se da Ponte sobre o Tejo, ir para a bancada dos sócios do FC Porto trajando as cores e insígnias do Benfica, fumar droga em Singapura ou na Malásia, etc.

Mas, pensando melhor, esta ideia é capaz de ter potencialidades. Em toda a vasta Arábia dominada pelo fundamentalismo, existe um ponto minúsculo, invisível no mapa, que penaliza os charros mas cujo emir é um bonzão, cheio de clemência para os estrangeiros: eles que se vão drogar para a terra que os pariu, é o seu lema.

Está encontrada a solução. O Artista Realizador é detido e passa a herói e mártir público. As televisões difundem propaganda de solidariedade em prime time. O Governo garante que mantém "toda a sua atenção e determinação no acompanhamento do caso, fazendo uso de todos os meios disponíveis para apoiar aquele nacional”. É pedida a assistência consular dos parceiros comunitários. O embaixador português em Riad desloca-se ao Dubai. O Ministério dos Negócios Estrangeiros impetra um pedido de clemência ao emir e é confrontado na Assembleia da República com requerimentos pedindo explicações por parte do PCP e o Bloco de Esquerda. A Ordem dos Advogados disponibiliza-se imediatamente para garantir a defesa de Ivo Ferreira. A secretaria de Estado das Comunidades garante que a situação do cidadão português está a ser acompanhada. Todas as instituições portuguesas se mobilizaram para resolver o problema do charro.

O Artista Realizador tornou-se assim um mártir, detido por fumar um charro, um inocente acto ao alcance de qualquer aluno do nosso sistema de ensino. E o seu suplício foi agravado, de forma bizarra e tenebrosa, quando a acusação foi deduzida em árabe. O país mediático estremeceu de horror. Em árabe? O nosso compatriota torturado, gemendo lancinante enquanto assinava documentos escritos naquele idioma invertido e sem vogais. Sabe-se lá quantos dias teria passado na sala de torturas, a treinar-se a escrever da direita para a esquerda.

Todavia o clímax mediático ocorreu quando, em declarações à SIC, Ivo Ferreira disse partilhar uma cela sem electricidade com outros 18 homens. Tamanho despautério provocou a indignação pública geral e a inveja discreta de alguns. O Bloco de Esquerda organizou novenas, com preces públicas. Adivinhava-se a apresentação de um projecto de Lei autorizando o exercício da poligamia em Portugal para cidadãos do Dubai, por permuta com fumaças de charros por cidadãos portugueses no Dubai.

Finalmente o paroxismo da libertação: A longa viagem para a liberdade de Ivo Ferreira. No Aeroporto Internacional do Dubai a mole humana interroga-se "Onde está o Ivo?". O Ivo está "lá dentro", segredava-se. Segundo o embaixador António Monteiro foi o despertar de um pesadelo. As autoridades dos Emirados Árabes Unidos bem insistiam que a sua presença já não era necessária, mas o embaixador queria saborear o pesadelo até ao fim. O responsável pela diplomacia egípcia, que também participou neste memorável resgate, chorava de emoção e recitava versículos corânicos.

O Artista Realizador Ivo Ferreira, como primeira declaração pública, pronunciou-se energicamente sobre o assunto, com a veemência e a credibilidade que o seu estatuto de mártir confere: "Espero que o meu caso sirva de lição, e que quer o Ministério dos Negócios Estrangeiros quer as agências de viagem passem a disponibilizar mais informações sobre os países e as suas leis."

Portanto, a lição não é sobre oportunidade de Artistas Realizadores sorverem haxixe, pois esse é um acto necessário, patriótico e promocional. A lição é para o MNE e agências de viagem: eles é que devem disponibilizar informações sobre as acções turísticas que se podem desenvolver nos diversos países e em que circunstâncias: fumar charros, inalar cocaína, injectar heroína, praticar pedofilia, apedrejar a mulher, perpetrar homicídios, etc.

Por exemplo, nos países do Médio Oriente, desde a época em que o Velho da Montanha e os seus “bebedores de haxixe” assassinavam as figuras públicas de então (assassino vem daquele termo árabe), que os protagonistas da política olham de soslaio os “bebedores de haxixe”, que vêem como seus assassinos potenciais. O MNE tem que disponibilizar informações históricas sobre estes casos, para prevenir os turistas. Em contrapartida podem levar as esposas para as linchar lá à vontade.

Foi até agora o charro mais caro alguma vez fumado por um português.

Publicado por Joana às 02:35 PM | Comentários (42)

abril 22, 2005

Os meus agradecimentos

De partida para um fim de semana prolongado não pude eximir-me em vir aqui apresentar os meus mais comovidos e veementes agradecimentos ao pessoal da RTP membro do Sindicato dos Jornalistas (SJ), do Sindicato dos Trabalhadores de Telecomunicações e Comunicação Audiovisual (STT) e do Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual (SINTTAV), pela greve que continua a ter, segundo eles, uma participação de quase 100%, “inclusive com a adesão dos trabalhadores da televisão pública que estavam de folga nos dias 18 e 19 e que hoje, dia 20, não retomaram o serviço".

Os meus agradecimentos só pecam pela insuficiência da prosa, mas os senhores sindicalizados desculpar-me-ão certamente, dada a premência da minha partida. E pecam porque aqueles sindicalizados deram uma tremenda lição ao país: aqueles sindicatos englobam a maioria dos trabalhadores da RTP, conseguiram uma adesão de 100% e permitiram que o país verificasse que a RTP continuava a funcionar e, inclusivamente, que aumentava as audiências.

Assim sendo, seria imperdoável o país esquecer que deve um favor enorme ao pundonor com que estes sindicalizados se esforçaram, durante 3 longos e empolgantes dias, a provar de forma irrefutável que são completamente desnecessários e que o país pode poupar 150 milhões de euros/ano, mais as derrapagens orçamentais e mais os 6 milhões que custariam as suas reivindicações actuais.

Espero, ansiosa, que os sindicalizados (hesito em chamar-lhes trabalhadores) de outras empresas públicas, que nos custam os olhos da cara e que nos tornaram nos campeões da Europa da caridade público-empresarial, exasperados pelo facto dos governos não sanearem e reestruturarem as suas empresas, sigam este exemplo e se empenhem igualmente em mostrarem, de forma tão decisiva, que são supérfluos e que essas empresas escusam de continuar a viver da caridade forçada dos contribuintes portugueses.

Publicado por Joana às 10:29 PM | Comentários (104)

abril 17, 2005

Inquisição Cautelar

Nada mais repugnante que os Inquisidores que se atribuíram a missão mesquinha de velar pela manutenção da ideologia dominante. Infelizmente é um desígnio nacional que remonta há perto de 5 séculos e que se tem mantido vivaz. Nada mais repugnante de que sejam aqueles que estão refastelados nas cadeiras do poder da Comunicação Social, pagos frequentemente pelos contribuintes, que acusam vozes que, a expensas próprias, se elevam contra essa ditadura do pensamento, de terem uma “difusão privilegiada - e sem concorrência - do seu correctíssimo proselitismo ideológico”. É o farisaísmo mais repugnante.

Uma das características do farisaísmo é acusar os outros dos seus próprios vícios. Por isso, V Jorge Silva acusa hoje, com a contumaz pesporrência, as vozes que têm, pelo esforço próprio e à custa de tanto insulto e calúnia, emergido do pântano da cultura estatizante, de terem a “Arrogância, a sobranceria, a pose de infalibilidade inquisitorial“.

Todos os totalitarismos ideológicos atribuem os males mais horrendos àqueles que se lhes opõem. Os fascistas condenavam os comunistas, acusando-os de comerem criancinhas; V Jorge Silva indigna-se pelo “ódio primitivo que hoje votam a figuras emblemáticas como Sartre (que alguns chegam, sem nenhum sentido do ridículo, a comparar a Salazar!)”. Se o ridículo (de VJS) matasse ...

Na realidade, o menos laudatório que se tem escrito sobre Sartre, neste ano do centenário do seu nascimento, é o relativo à sua intervenção política (e não como escritor ou filósofo), comparando-o com Raymond Aron, que nasceu no mesmo ano e foi condiscípulo dele, sublinhando, como eu escrevi aqui há um mês, que em cada evento, Sartre esteve, quase sempre, do lado certo, de acordo com o pensamento politicamente correcto da época, mas quase sempre do lado errado, de acordo com o posterior julgamento da história enquanto Aron esteve, quase sempre, do lado errado, de acordo com esse mesmo pensamento politicamente correcto e sempre do lado certo, de acordo com o mesmo julgamento posterior.

Nada disso prefigura um ódio primitivo mas apenas análise política e histórica factual; Não li em sítio algum Sartre ser comparado a Salazar. E se tal tivesse acontecido, isso apenas constituiria ignomínia para quem o escrevesse e não para Sartre.

Por isso é normal que os arautos do actual politicamente correcto odeiem serem confrontados com exemplos de figuras que foram idolatradas sobre os acontecimentos e cujos erros emergiram e foram ganhando uma dimensão cada vez mais calamitosa, à medida que a distância temporal se ampliou. Receiam o julgamento da história. E enquanto esse julgamento não chega ... insultam os adversários.

Publicado por Joana às 10:22 PM | Comentários (35)

abril 14, 2005

Hipocrisias

O parecer da Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) sobre a venda da Lusomundo Serviços à Controlinveste é uma contradição nos termos, uma contradictio in subjecto, ao assinalar, como primeira condição, que "a adquirente respeite a liberdade de expressão e o confronto das diversas correntes de opinião, bem como a identidade e linha editorial dos órgãos de comunicação social em presença”, e isto porque ou a identidade e linha editorial dos órgãos de comunicação social em presença respeitam a liberdade de expressão e o confronto das diversas correntes de opinião e nessa situação o segundo termo é mais que despiciendo, é nocivo, porquanto gera ambiguidades; ou não as respeitam, e deverão ser alteradas em vez de protegidas por uma entidade que teria por missão zelar pela liberdade de expressão.

A AACS é uma entidade que já recebeu a extrema-unção há bastante tempo, cujos figurantes terminaram os mandatos há mais de um ano, e cujo corpo jaz, putrefacto, à espera que os políticos se decidam a removê-lo para o destino final. Como qualquer múmia o seu único objectivo é a conservação. A AACS apenas pretende conservar a situação que o nosso recente processo histórico criou na comunicação social e mantê-la per omnia secula secolorum.

A referência à liberdade de expressão e o confronto das diversas correntes de opinião é apenas o ramo de salsa do leitão da Bairrada (respeite ... a identidade e linha editorial dos órgãos de comunicação social em presença). A AACS refere-se à liberdade da [nossa] expressão e ao confronto das [nossas] diversas correntes de opinião.

Quando um empresário compra uma fábrica de calçado tem que se obrigar a satisfazer as leis e os regulamentos em vigor na actividade que exerce. Não existe todavia uma Alta Autoridade para os Modelos de Calçado que lhe imponha os formatos de sapato que vai produzir, e lhes imponha: o Sr. empresário terá que se cingir aos modelos actualmente fabricados e, sobretudo, evitar aquelas sandálias de salto alto, tipo agulha, de tiras finíssimas que se entrelaçam lascivas, perna acima, pois fazem mal à coluna e, para mais, só despertam pensamentos pecaminosos, o que na nossa idade pode provocar um AVC.

Não vejo porque há-de ser diferente na Comunicação Social. É certo que, pela sua especificidade, faz necessariamente parte do seu regulamento o respeito pela liberdade de expressão e pelo confronto das diversas correntes de opinião, no produto que vende ao público. Ao “exigir” igualmente o respeito pela identidade e linha editorial dos órgãos de comunicação social está a ser hipócrita, pois está a tirar com a mão esquerda o que deu com a direita – o Sr. empresário tem que respeitar a liberdade da nossa opinião, ou seja, da opinião que lhe impomos, e terá que respeitar o confronto das [nossas] correntes de opinião, ou seja, aquelas que se inserem na nossa identidade e na nossa linha editorial.

Todavia, os vícios da AACS têm trazido alguns benefícios. Bernard de Mandeville escreveu, no início do século XVIII, na A Fábula das Abelhas: Ou velhacos transformados em gente honesta que O que, no estado da natureza, faz o homem sociável, não é o desejo que tem de estar em companhia, nem a bondade natural, nem a piedade, … . As qualidades mais vis, frequentemente as mais odiosas, são as mais necessárias para torná-lo apto a viver com o maior número. São elas que … mais contribuem para a felicidade e prosperidade das sociedades. Neste caso também há benefícios: ao entregar a Comunicação Social aos jornalistas que “descobriram o caminho marítimo para lá chegarem” com exclusão de arrivistas posteriores, a AACS está a promover meios alternativos, como a blogosfera. Os velhacos [foram] transformados em gente honesta! A irrupção da blogosfera deve-se, em parte, às mordaças da AACS e quejandos – apesar das suas intenções serem vis, estão a promover o bem.

E com o tempo vai igualmente verificar-se que esse espartilho legal se revelará precário. No sistema capitalista, como escrevia Marx, tudo o que é sólido se dissolve no ar. Portugal tentou preservar para si o “Justo Império Asiático” armado de leis, bulas, etc.. Isso não impediu holandeses e ingleses, quando tiveram meios para isso, de o retalharem em seu proveito. A descoberta do caminho marítimo para o Oriente não nos conferiu uma procuração irrevogável de usufruto daquelas áreas. O mesmo vai acontecer com as pretensões da AACS e dos jornalistas “instalados”. O facto de eles terem chegado primeiro não os vai manter indefinidamente no poleiro.

Publicado por Joana às 08:11 PM | Comentários (32)

março 29, 2005

Os Vigilantes

Reina uma profunda preocupação entre os detentores das verdades absolutas e do politicamente correcto que, desde há décadas, parasitam a comunicação social. Esta, por duas ou três vezes, deu ultimamente a lume artigos ou dossiers sobre uma eventual crise da Direita, sobre a provável necessidade de “refundar a Direita, etc.. Para esse desiderato foram auscultados diversas figuras da direita (hesito em chamar-lhes intelectuais, porque para obterem essa categoria necessitariam situarem-se noutras áreas políticas). Foi demais! Vicente Jorge Silva verberou imediatamente no DN essa prática insolente e escreveu indignado que “as opiniões que neles [os órgãos de comunicação social] hoje prevalecem - entre directores editoriais e a maioria dos colunistas - são claramente de direita”.

Obviamente Vicente Jorge Silva exigiria que o debate sobre o futuro da direita e sobre as suas crises e refundações fosse feito por verdadeiros e robustos intelectuais, detentores das verdades absolutas, em suma, escrevinhadores da esquerda.

É um facto que este governo tem sido obsequiado com um pacto de silêncio e uma simpatia indisfarçável, enquanto que o governo de Durão Barroso foi, desde o início, objecto do terrorismo verbal mais absoluto e que o governo de Santana Lopes foi entregue pelo PR à vigilância popular logo na indigitação. É um facto que idênticas declarações contraditórias de titulares de cargos públicos, sobraçando idênticas pastas, foram trapalhadas hilariantes no governo anterior e agora deslizes irrelevantes que não beliscam craveiras de indiscutível valimento.

Mas essa aparente discrepância faz parte da natureza das coisas. Não colhe para as interpretações de Vicente Jorge Silva. Não se deve esperar equanimidade de critérios, ou mesmo misericórdia, para com os infiéis. Os infiéis vivem em pecado pela sua própria natureza. Não foram iluminados pela graça divina da verdade absoluta. Deixar que alguns despontem, ao de leve, na comunicação social é uma heresia que deve ser condenada liminarmente.

Nem todos. O neófito quando entra no aprisco é adulado como o filho pródigo da parábola bíblica. Foi o que aconteceu ao Freitas do Amaral. Mas é isso que têm em comum as verdades absolutas, quer as reveladas por reverberação divina, quer as inerentes à missão histórica que um grupo social se atribuiu, de salvar a humanidade mesmo contra vontade desta, nomeadamente quando os exemplos práticos desses salvamentos se saldaram em desastre calamitosos.

Publicado por Joana às 07:55 PM | Comentários (38)

fevereiro 13, 2005

Sado-masoquismos

Acompanho com muito interesse as reportagens da Helena Pereira sobre a campanha de Santana Lopes. É curiosa esta relação. É a modos como se um assaltante de bancos fizesse a cobertura das conferências de imprensa dos banqueiros cujos bancos ele vai sucessivamente assaltando. Este processo de relatar publicamente os queixumes das próprias vítimas tem o perfume voluptuoso de uma perversão sado-masoquista.

Observemos o que a imaginativa criadora de “realidades paralelas” assinalou hoje como positivo e negativo da campanha do PSD:
Positivo – Rui Rio que é vice-presidente do PSD, mas ultimamente parecia andar desaparecido, apareceu ontem.
Negativo – O grito de revolta de Pedro Santana Lopes contra a comunicação social entusiasmou a assistência, mas não é a melhor estratégia para um dos maiores partidos do país se afirmar.

Portanto, o positivo é algo que era muito negativo, ter-se tornado menos negativo; o negativo é eles estarem sempre a falar de mim. Mas será que ninguém os cala? Ter que escrever que "Existe uma minoria [de jornalistas] que fazem trabalho político-partidário não isento e que quer enganar os portugueses"! Se este martírio continua assim, despeço-me, alegando justa causa. Alguma coisa se há-de arranjar ... talvez o Barnabé ou A Capital (se ainda não tiver falido) me dêem trabalho.

E a Helena bem lhes dá conselhos estratégicos, mesmo sem eles os pedirem, mesmo não sendo essa a sua missão. Mas eles ...

Publicado por Joana às 07:31 PM | Comentários (16)

fevereiro 11, 2005

Da Delinquência à Arte

Certamente por uma punição do destino (ou do patrão) coube a Helena Pereira a cobertura da campanha do PSD, ontem, em Bragança. E foi bom, se lermos o seu arrebatamento ao destacar que PSL se tinha insurgido contra a "realidade paralela" que é criada pela comunicação social. Helena Pereira julgava que tinha falsificado a realidade. Afinal teve a gratificante surpresa de ouvir, no extremo nordeste do país, em primeira mão e por uma das vítimas da sua inventona, que apenas criava “realidades paralelas”. Deve ter sido um momento alto da sua carreira, pois é enorme a distância que separa uma falsária de uma criadora de “realidades paralelas”. É a mesma que separa a delinquência, da arte.

É bom saber-se uma artista. É bom olhar-se ao espelho e poder exclamar com uma surpresa inebriante: Ecco una artista!

Apenas lhe desejo que não se veja na contingência de ter de saltar do parapeito da plataforma do Castel Sant'Angelo para o vazio, aos gritos de: O Santana, avanti a Dio!

Publicado por Joana às 07:20 PM | Comentários (25)

fevereiro 10, 2005

A Gentileza acima de tudo

Recebi um esclarecimento do Director do Público sobre o meu post anterior. Não vou discutir o seu conteúdo, ou se discordo ou concordo (total ou parcialmente) com as razões nele aduzidas. Queria apenas sublinhar a cativante surpresa pelo gesto e pela maneira afável como esse esclarecimento foi redigido, contrastando aliás bastante com a fogosidade polémica do meu post. Se fui injusta, e eu não estou em situação de saber para além daquilo que é (e continua a ser) visível (e foi sobre isso que me pronunciei), peço evidentemente desculpas. Sendo assim, apenas O Público saberá se fui ou não injusta, e se o meu pedido de desculpas faz ou não sentido. Em qualquer dos casos, quando a questão se coloca nestes termos, é porque há algo de muito errado – as notícias devem ser transparentes e assentarem em fontes claras e não estarem à mercê do crivo dos subentendidos ou das presunções (dos jornalistas e/ou dos leitores).

Publicado por Joana às 05:26 PM | Comentários (59)

A Ignóbil Public(aria)

A Nota da Direcção do Público é o paradigma do farisaísmo mais abjecto e canhestro. Começa por reconhecer que a notícia era falsa (este [Cavaco] não fez "qualquer declaração ou comentário sobre o processo eleitoral em curso"). Depois confessou que andava a trabalhar há várias semanas naquela falsificação e que a notícia resultou do cruzamento de várias fontes (obviamente inexistentes e falsas, como havia confessado anteriormente). E acrescenta este mimo: Contudo, ao falar das intenções de Cavaco Silva sem que este tivesse tomado qualquer posição pública, a notícia permitia um desmentido nos termos do de ontem (!?). Leia-se: Contudo, pela notícia ser inventada e falsa, ela permitia um desmentido nos termos do de ontem.

Será que a Direcção do Público não tem vergonha na cara? Como é possível escrever seraficamente que andava há semanas a trabalhar no cruzamento de várias fontes e confessar em simultâneo que Cavaco não fez qualquer declaração ou comentário. Que jornalismo é este que cruza durante semanas informações inventadas para produzir notícias inventadas? Será que o jornalismo desistiu dos factos, esses empecilhos à criatividade de Eunice Lourenço, Helena Pereira e de toda a Direcção do Público?

O mais sórdido nesta nota é que o Público não se penitencia de ter falsificado uma notícia e de ter sido contumaz nessa falsificação. Apenas reconhece que fez uma má escolha do título de capa ao optar pela expressão "aposta em", expressão ambígua a meio caminho entre o "prevê" e o "apoia". O Público apenas errou por ter feito desta falsificação o título de primeira página. Se a tivesse escondido nas páginas interiores, como faz com os desmentidos das suas falsificações, estaria certo e imaculado.

Ontem eu havia escrito que “É óbvio que este jornalismo sórdido não é produzido às escondidas da Direcção do Público. Ele terá que ter a conivência dessa Direcção, ou pelo menos de parte dela”. Confesso humildemente que me enganei, ainda que parcialmente. Esta falsificação e a sua contumácia foi feita, como parece agora evidente, com a conivência de toda a Direcção do Público..

É uma Ignóbil Porcaria ... ou melhor ... Public(aria). Teria sido menos sórdido não ter escrito nada.

Publicado por Joana às 01:11 PM | Comentários (46)

fevereiro 09, 2005

A Vitimização e o Vale-Tudo

A relação da comunicação social com Santana Lopes faz lembrar a relação da madrasta cavernícola e autoritária com o enteado – depois de o sovar, quando o miúdo se apresta num vago queixume, grita-lhe: e se choras apanhas mais! Não há nada a fazer – primeiro sovam-no em todos os tons e sons; depois quando ele menciona os agravos, é sovado por “se estar a vitimizar”. Vem isto a propósito de uma jornalista do Público, Eunice Lourenço, que eu já citei mais que uma vez (aqui e aqui), pelas suas notícias absolutamente destituídas de rigor e ética, ter escrito ontem (em co-autoria com a colega Helena Pereira) um artigo em que afirmava peremptoriamente que “Cavaco aposta na maioria absoluta de Sócrates”.

É uma notícia escrita de uma forma absolutamente perversa, pois pela sua leitura se verifica que aquela afirmação, e outras de teor idêntico nela insertas, não provêm directamente de Cavaco, mas de alegadas “fontes próximas”. Aquela notícia foi imediatamente desmentida.

Hoje o Público traz, das mesmas autoras, uma notícia intitulada “Ex-primeiro Ministro Incomodado com Notícia do PÚBLICO”, onde as autoras sugerem que aquele desmentido apenas indiciava que Cavaco estaria incomodado. Ou seja, não era a primeira notícia daquelas jornalistas que era uma mentira, o mentiroso seria agora Cavaco que mentia (desmentindo) por estar incomodado ...

Agora o ex-primeiro-ministro enviou uma declaração à Lusa onde afirmou: "Ontem, dia de Carnaval, fui surpreendido com uma notícia no jornal PÚBLICO intitulada 'Cavaco Silva aposta em maioria absoluta do PS'. A notícia não tem qualquer fundamento". "Trata-se de uma total invenção da parte de quem a escreveu. Não fiz qualquer declaração ou comentário sobre o processo eleitoral em curso. Embora ausente de Lisboa, tive oportunidade de transmitir o meu protesto ao director do PÚBLICO".

Curiosamente esta informação aparece no Público on-line sob a epígrafe de “Cavaco Silva recusa envolver-se em manobras eleitorais” e nem está sequer assinada. Provavelmente a intenção será a de insinuar que se trata de mais uma mentira de Cavaco Silva para evitar “envolver-se em manobras eleitorais”. Conclusão, não vale a pena desmentir, pois a notícia continua lá, incólume, indiferente aos factos.

É óbvio que este jornalismo sórdido não é produzido às escondidas da Direcção do Público. Ele terá que ter a conivência dessa Direcção, ou pelo menos de parte dela. Um jornal como o Público pode errar uma vez, pois é natural que um chefe confie nas suas colaboradoras e não vá verificar a seriedade das notícias. Todavia é um indício terrível que publique os sucessivos desmentidos a esse erro metamorfoseados em “mentiras piedosas”. É o indício que é o próprio jornal que não é isento; é o indício que a falta de ética e a sordidez jornalística daquelas plumitivas têm a cobertura da Direcção do jornal.

Não vou discutir quais as intenções destas “notícias”. Santana Lopes está impedido de se queixar – qualquer queixa dele não passa de vitimização. Cavaco Silva está impedido de desmentir – qualquer desmentido dele é apenas mais uma mentira para disfarçar o seu “incómodo”. Não há pois nada a fazer quando a nossa comunicação social cria um “facto político”. Mesmo que não exista ... é um “facto político”!

Para mim, é justamente esse o “incómodo”: a fabricação pela nossa comunicação social e, mais grave, por um órgão de referência dessa mesma comunicação, de um “facto político” e a sustentação desse “facto político” para além de todos os desmentidos.

Chegámos ao Vale-Tudo.

Publicado por Joana às 07:58 PM | Comentários (22)

janeiro 11, 2005

Sondagem Decisiva

A imbecilidade da Comunicação Social está para além das Novas Fronteiras ...
O PÚBLICO/RTP encomendou à Universidade Católica Portuguesa uma sondagem para que os portugueses opinassem sobre se protecção civil está bem ou mal preparada para lidar com as consequências de um terramoto ou de um maremoto.

Que eu saiba, a sondagem dirigiu-se aos portugueses em geral e não a especialistas de Protecção Civil, Geologia, Geotecnia ou Mecânica de Solos. Ora a impressão que os portugueses têm de uma matéria como esta é a aquela que, confusamente, enquanto jantam e ralham com os filhos, escutam nos jornais televisivos. Os jornalistas escusavam de encomendar sondagens ... bastava indicarem a sua própria opinião, visto que os portugueses, leigos na matéria, apenas poderiam emitir a opinião veiculado pelos mídia.

Outras sondagens tornam-se assim possíveis e decisivas:

Acha que a Ponte Vasco da Gama aguenta com um sismo de grau 8? (Nota: há mais umas centenas de pontes com dignidade suficiente para serem objecto de sondagens idênticas).

Acha que há água em Marte? E, no caso afirmativo, acha que será melhor que a Água do Luso?

Acha que a Terra irá colidir com um asteróide durante este milénio?

Acha que o Lusitanosaurus da Lourinhã morreu de susto ao saber que Santana Lopes iria ser indigitado 1º Ministro daí a uma centena e meia de milhões de anos?

Publicado por Joana às 07:59 PM | Comentários (10)

janeiro 09, 2005

Tiros ao Acaso

Fico perplexa pelo que tenho lido e ouvido nos últimos dias. Jornalistas, fazedores de opinião e políticos no desemprego fazem lembrar um grupo de caçadores urbanos, vestidos a rigor, de um camuflado impecável, com caçadeiras e cães do último modelo e topo de gama, que iniciam a caçada pelas onze da manhã, atirando a tudo que mexe e não conseguindo destrinçar uma vaca de uma lebre.

A questão é simples. O país tem um problema, mas nem sequer conseguiu ainda atinar com o enunciado do problema, quanto mais com a solução ou soluções. E isto é deveras preocupante.

No início de 2002 o problema era Guterres, segundo a quase unanimidade daqueles caçadores urbanos. Mas quase nenhum tentou formular o enunciado do problema, porque Guterres não passava de um epifenómeno de um problema muito mais complexo. O problema ia muito para além de Guterres. Este apenas o tinha tornado desmedido.

Nos dois anos seguintes assistiu-se aos esforços inábeis de um governo para resolver um problema do qual se desconhecia o enunciado. E os caçadores urbanos, nos seus artigos, colunas e homilias, apenas se comportavam como tal: atiravam a tudo que mexia ... menos às espécies cinegéticas.

Finalmente, a indigitação de um novo primeiro ministro permitiu uma clarificação: Era ele o problema. Os caçadores urbanos já tinha um alvo: Santana Lopes. Foi a explosão de alegria entre os caçadores urbanos. Mas como Santana não era uma espécie cinegética, os chumbos continuavam inúteis para a solução de um problema sem enunciado.

A dissolução da AR pelo PR foi uma espécie de ágape festivo, de febras grelhadas e tinto, numa caçada infrutífera, num trilho abandonado e inútil. Foi um folguedo: a carne acalmou os estômagos e o tinto inebriou os espíritos. A caçada iria prosseguir, por trilhos ínvios, horizontes ignotos e espécies inexistentes, mas prosseguiria.

Surge agora a questão das listas. A depressão é geral. Santos Silva geme: “Nos partidos, as inumeráveis capelas e as suas afinidades e rivalidades tribais enxameiam as listas de candidatos sem rosto, sem ideias e sem valor autónomo”, esquecendo que mesmo os que têm rosto, como ele, não têm ideias nem valor autónomo. Numa coisa tem esse ex-Ministro de Educação, de desconhecida memória, razão, os “atiradores” esquecem-se que, na vez anterior, escreveram exactamente o mesmo.

António Barreto foi liminar: Três cavalheiros, Santana, Sócrates e Portas, nomearam pessoalmente cerca de 80 deputados ... mais ou menos 5.000 pessoas dos cinco partidos, reunidas em comissões locais ou nacionais, nomearam 190 deputados, ou seja, a quase totalidade do Parlamento que entra em funções dentro de seis semanas. Restam 40 para nós elegermos.

Outros falam de que o país estava à espera que a moeda boa regressasse, e expulsasse a moeda má, e afinal os partidos porfiaram em apresentar ao eleitorado um baú repleto de moedas mais “quebradas” que alguma vez o rei D. Fernando ousou fazer, nos períodos de maior aflição de escassez de metais preciosos no Reino. Nunca se viu moeda de tão baixo teor, clamam.

O problema agora é a questão das listas. Com tanta mediocridade, como resolver o problema? Mas qual problema? Primeiro há que identificar “o problema” e formular o respectivo enunciado. Eu olho para as listas e não vejo que estes sejam, em média, mais medíocres que os anteriores. Alguns nomes sonantes saíram dos elencos elegíveis. Mas são apenas nomes sonantes. Nunca vislumbrei neles qualquer competência. Helena Roseta, por exemplo, competente? Nem como política, nem como arquitecta ... não passa de um nome gerado pelos aparelhos partidários do PSD e do PS.

Jorge Sampaio, um dos mais exímios caçadores de pólvora seca, num debate há dias na SIC, na sequência aliás da sua mensagem de Ano Novo, voltou a afirmar a necessidade de uma estabilidade a médio prazo (ele, que vai ficar na História como o primeiro, e esperemos o último, presidente que dissolveu uma AR com uma maioria estável, a meio do mandato) e um entendimento entre os principais partidos para resolver “o problema”.

Portanto, para Sampaio, e não só, a solução poderia estar num entendimento partidário alargado para tomar medidas ditas “impopulares”, mas necessárias, para recuperara o país. O que há de anedótico em tudo isto é que Sampaio andou a vetar, ou a enviar para o Tribunal Constitucional, para este considerar inconstitucional, inúmeras medidas impopulares em matérias que agora reclama serem solucionadas mediante um entendimento salvador.

O problema das medidas impopulares não é apenas elas serem impopulares e só gerarem efeitos positivos a médio e a longo prazo. Não é precisarem de um entendimento partidário alargado, para assegurarem a quietude social. É serem inconstitucionais. A nossa constituição, apesar das revisões que teve, continua inquinada pelo conceito de um Estado demasiado interventor na economia e na prestação de serviços públicos, o que é uma contradição com o funcionamento eficiente de uma economia de mercado. Continua inquinada por conceitos que protegem interesses corporativos e impedem o funcionamento eficiente do mercado de trabalho, o que é negativo em termos de competitividade e de incentivos à qualificação. Temos uma constituição que tem disposições que não deveriam figurar lá, por constituírem matéria para decisões dos governos e não normas rígidas que os governos estão impedidos de alterar. Temos uma constituição completamente desajustada face aos países com os quais concorremos, face aos países com os quais estamos unidos política e economicamente. Temos uma constituição que é contrária aos interesses do país e um entrave ao seu desenvolvimento.

Para que queremos deputados competentes e governantes competentes, se essa competência não se traduzir em resultados práticos? Apenas por masoquismo extremo, gente competente aceitaria expor-se a governar, sabendo que não tem possibilidades constitucionais de resolver as questões mais essenciais.

E o masoquismo é uma perversão e não uma virtude.

Publicado por Joana às 10:17 PM | Comentários (12)

dezembro 28, 2004

Quando os não factos são notícias

O país estava carente de notícias. É certo que a catástrofe do Índico, que deve ter ceifado cerca de cem mil vidas, foi um maná para a sede sanguinolenta das nossas Tvês. Com que luxúria se lançaram sobre aquele pesadelo, com repórteres afadigados na perseguição de traumatizados, questionando-os sobre o cataclismo, tentando sacar as imagens mais arrepiantes possíveis. Mas não há nada que se compare com uma boa zaragata nacional.

Se não há notícias, nada como criá-las. O «Diário Económico» noticiou hoje que o Ministério da Segurança Social ordenou a suspensão do pagamentos dos subsídios de doença e de desemprego que deviam ser efectuados nos últimos dias de Dezembro, com o objectivo de transferir despesas para o próximo ano, aliviando a execução orçamental de 2004.

A razão apontada é pouco consistente. O défice orçamental avalia-se em termos de compromissos (custos e receitas) e não em termos de fluxos financeiros (pagamentos e recebimentos). Portanto parte daqueles fundos já estaria incluída no défice. Por outro lado os valores em causa são irrelevantes quando comparados com os montantes da despesa pública e do défice. Não excluo liminarmente que houvesse tentativa de protelamento de pagamentos, como tem acontecido, desde sempre, com mais frequência do que seria desejável, mas, se tal tivesse acontecido, seria por questões pontuais de tesouraria.

Aliás, o Ministro das Finanças, que é o responsável pelo orçamento, desmentiu, através de uma porta-voz, recorrer a «eventuais» atrasos no pagamento dos subsídios de desemprego e doença para controlar o défice orçamental de 2004, afirmando que «não deu qualquer ordem ou orientação nesse sentido» e desconhece «eventuais atrasos» no pagamento daquelas prestações sociais, a cargo do Ministério da Segurança Social. E acrescentou que alegados atrasos «a existirem, nada têm a ver com controlo do défice, cujas contas estão feitas e foram já explicadas». O Ministério da Segurança Social desmentiu igualmente a notícia.

As notícias referem-se a alegados factos, mas os protestos foram verdadeiros, coléricos e arrebatados. Carvalho da Silva apelou a uma revolta nacional e afirmou, com a segurança de quem sabe ser ele próprio um dos principais responsáveis por isso, que «o país assim não se desenvolve». As oposições reagiram indignadas gritando "a sua profunda indignação pela ignóbil atitude do governo”. As notícias foram desmentidas, mas os protestos mantiveram-se. Apenas deixaram de ser protestos contra as notícias ... passaram a ser protestos contra as alegadas notícias.

A TVI conseguiu mesmo, após uma devassa exaustiva, descobrir duas pessoas, no Algarve, uma em Faro e outra em Loulé, que se queixavam de atrasos no recebimento de subsídios.

Louvemos em piedosa atitude estas duas modestas algarvias que, heroicamente, sozinhas, sustentam o défice da nossa Pátria. Sem o seu patriótico, abnegado (e forçado) contributo, a Pátria, e os seus egrégios avós, estariam agora a contas com os empedernidos contabilistas do Eurostat. Louvemos igualmente a TVI por nos dar a conhecer quem, tão devotadamente, é o sustentáculo do nosso precário equilíbrio orçamental. Nunca tão poucas, valeram tanto.

E louvemos o heróico Director do Diário Económico que, segundo ele próprio, e já desesperado por ninguém reconhecer o seu merecimento, apareceu nos jornais televisivos das 20H00 a vangloriar-se de se dever a ele, e à sua notícia, que os subsídios de doença e de desemprego vão ser pagos.

É bom ser-se Director de um jornal. Diz-se que havia no Pireu, na clássica Atenas, um louco que se reclamava dono do porto e de todas as embarcações que o demandavam. Um director de um meio de comunicação, com a empáfia de Martim Avillez, pode reclamar-se de ser o motor de tudo o que aconteça. Basta noticiar que um facto notório não vai acontecer e aparecer, depois, a clamar ... olha se não fosse eu!

Amanhã o Sol não tem intenções de se levantar, asseguro-vos. Mas se ele despontar, desde já afianço que só o fará devido ao escândalo abjecto que eu acabo de denunciar publicamente, neste blogue. Portanto, se ele nos iluminar amanhã ... a mim o devem.

Publicado por Joana às 10:57 PM | Comentários (49)

dezembro 09, 2004

Santos do pé da Porta ...

Ou como o barato sai caro

O editorial de hoje da Capital, o émulo do New York Times na declaração pública de apoio a Kerry à presidência, traça um panegírico exaltante de Vasco Vieira de Almeida. E depois de tanto espanto e admiração por essa ínclita figura, esperar-se-ia, no fim da alocução daquele brilhante advogado e empresário no jantar de homenagem a Mário Soares, que Luís Osório acorresse para os braços do eminente causídico e, num exaltado amplexo, lhe murmurasse ao ouvido todo o arrebatamento político, económico, jurídico, oratório, social, culinário, etc., que lhe fizera brotar na sua alma de jornalista de causas presidenciais americanas.

Sussurrar-lhe-ia:«Vasco ... és um dos portugueses mais brilhantes, nunca ouvi ninguém que o fosse mais. Serias o Presidente da República ideal. Sobretudo, neste tempo em que o sistema é enxovalhado pela miserável mediocridade da maioria dos protagonistas políticos». Naquele enlevo de alma, ledo e fugaz, nem lhe acudiria à memória que a mais «miserável mediocridade» é a dos jornalistas do estilo dele.

Puro equívoco. Quando se esperaria esse intenso sobressalto cívico de Luís Osório, este deixou-se ficar tenazmente grudado à cadeira, a mão que segurava o copo, hirta e estática, os lábios arrepanhados numa cãibra rígida, cenho franzido e carrancudo. Liberto do efeito inebriante e anestesiante das palavras de VVA, o seu cérebro voltou à ronceirice contumaz e os pensamentos laboriosamente arquitectados traduziram-se no editorial de hoje. «A forma como Vasco Vieira de Almeida falou sobre o país, com um brilhantismo formal que poucas vezes vi, ao contrário do que se possa pensar, não me deu qualquer vontade de o conhecer pessoalmente. Aos meus olhos passou a ser alguém que tinha tudo para contribuir de outra forma por este país, mas que decidiu de uma forma egoísta enriquecer e viver para si e para os seus muito restritos

Vasco Vieira de Almeida, se se deu à pachorra de folhear aquele pasquim, por ter sido alertado para tal por algum amigo malevolente, deve estar a esta hora arrependido de ter comparecido naquela cerimónia pública. Ele, que havia fugido da política, poucos meses depois de ter entrado nela, exactamente para evitar as mediocridades e a devassa da vida privada por jornalistas pacóvios e mentecaptos, servir de pasto a um deles, apenas por ter acedido a comparecer a uma festa de aniversário, é uma sina malvada.

Pois é ... Vasco Vieira de Almeida é genial ... porque nunca foi desgastado pela vida política, porque nunca foi sujeito à devassa pública e privada feita por um jornalismo mesquinho, porque quando discursa, não tem milhares de jornalistas a folhear dicionários e a correr motores de busca na net, para inventariar todos os significados e anexações semânticas de todas as palavras, de forma a desconstruir o discurso segundo os eixos de orientação mais convenientes para zombar do orador e desdenhar dos conceitos. Quando Vasco Vieira de Almeida fala, tem por ouvintes apenas homens de negócio ou juristas, objectivos e que se interessam unicamente pelo exacto sentido das palavras e pelos resultados do seu discurso.

Não tenho dúvidas que Vasco Vieira de Almeida seja um homem brilhante. Mas tenho muitas dúvidas que seja um «egoísta» que decidiu «enriquecer e viver para si e para os seus muito restritos», utilizando as palavras do fariseu Osório. Enriqueceu porque é extremamente competente. Não foi egoísta, foi apenas sensato. E essa sensatez ficou provada pelos disparates do Osório.

Portugal está cheio de gente brilhante. António Borges é um deles. Ernâni Lopes, Medina Carreira e Silva Lopes são também gente brilhante, que têm em comum o terem estado sentados nos lugares governamentais apenas por pouco tempo e há muitos anos. Durante a campanha eleitoral de Durão Barroso perfilavam-se por detrás dele nomes brilhantes, sonantes e clarividentes. Tão clarividentes que, quando Durão Barroso quis constituir governo, desvaneceram-se por entre as brumas da memória, deixando-o na necessidade de se socorrer de gente medíocre como, por exemplo, Manuela Ferreira Leite, promovida entretanto a «ministra respeitada» pelo José António Lima e pela oposição em geral, não pelo que fez enquanto ministra, mas pelo que fez, depois de deixar de o ser.

Há muitos portugueses brilhantes, em Portugal e no estrangeiro. Mas são raros os que acedem a participar na vida política. Tudo impede essa participação: a suspeição permanente que a comunicação social e muitos políticos, medíocres e invejosos, lançam sobre os políticos em geral; o regime draconiano e estúpido das incompatibilidades, fruto da crise final do cavaquismo e da ânsia de auto-flagelação que os políticos de então estavam possuídos; os vencimentos que além de baixos, suscitam inveja; o desaparecimento do status social que estava ligado ao exercício de um cargo governativo; etc., etc..

E o mais anedótico é que todos nós, ou quase, reconhecemos isso. Mas continuamos sedentos de mexeriquices e cavilações políticas, irredutíveis sobre a necessidade da política ser um sacerdócio, inexoráveis sobre o desperdício que é pagar vencimentos aos políticos, e desdenhosos sobre o exercício de cargos públicos.

O barato sai caro e santos do pé da porta não fazem milagres. Quem inventou estes anexins populares devia estar a pensar na classe política portuguesa e na nossa relação com ela.

Publicado por Joana às 09:41 PM | Comentários (21)

novembro 23, 2004

O Estranho Caso da RTP

A audição de José Rodrigues dos Santos e Almerindo Marques, ontem, perante a subcomissão parlamentar de Direitos Fundamentais e Comunicação Social, deixou-me confusa.

Ao longo de toda a audição uma interrogação pairou em permanência: porquê este braço de ferro, quando anteriores desacordos sobre colocações se sanaram a contento? Porquê este braço de ferro numa altura em que saíam notícias no Expresso sobre uma alegada avaliação de Rodrigues dos Santos? Porquê este braço de ferro numa altura em que o governo era bombardeado diariamente com críticas sobre a sua relação com a comunicação social? Porquê este braço de ferro entre duas entidades que se elogiaram mutuamente e que garantiram, ambas, nunca ter havido interferência do CA na política informativa? Porquê este braço de ferro sobre uma questão aparentemente menor, embora Rodrigues dos Santos argumentasse que a decisão do CA significava que já não estava no uso pleno dos seus poderes, e que tal era grave? Porquê ter sido este o primeiro concurso em que o júri da parte editorial apresentou os resultados sob a forma de lista seriada?

Em primeiro lugar ambos os auditados gozam de boa reputação. Almerindo Marques é conhecido por ser um homem com uma “integridade à prova de bala”, que não privilegia o amigo e incapaz de despromover o inimigo. É extremamente trabalhador e exigente consigo próprio. Subiu a pulso na vida. Estava no Banco da Agricultura quando, em fins da década de 60, um novo administrador, para escolher um adjunto, convocou diversos quadros da empresa para reuniões onde expunha as suas ideias sobre o futuro do banco. Algumas pecavam, propositadamente, por falta de sensatez. Chegada a sua vez, Almerindo, que ainda não tinha 30 anos, ouve-o perplexo. No fim disse-lhe: "Com esses critérios não fico no banco." Esta resposta corajosa garantiu-lhe o lugar.

Sempre se pautou pela integridade, reconhecida por todos, numa vida profissional ligada à Banca até abandonar a CGD, nas vésperas de eleições de 2002, após denunciar várias operações financeiras pouco transparentes. Esteve sempre, pelo menos até 2002, ligado ao PS.

Sobre José Rodrigues dos Santos não tenho informações, mas sempre me pareceu um sujeito sensato, e a sua actuação como Director de Informação da RTP parece-me que tem sido excelente. Aliás, a RTP ganhou muita credibilidade com a actual equipa, que está lá desde meados de 2002.

Por isso mesmo este caso permanece muito misterioso. Como é possível que por causa do provimento de um lugar de correspondente em Madrid, se tenha chegado a este braço de ferro? A única discrepância, com substância, entre os dois depoimentos refere-se à forma como decorriam os concursos. Concursos que aliás só começaram a haver com esta equipa.

Rodrigues dos Santos deu a entender que sempre houvera uma seriação dos candidatos e que o CA sempre concordara com as propostas da Direcção de Informação. Ou quase sempre. Houve casos que, por razões de representação institucional, o candidato escolhido não teria sido o primeiro.

A CA tem uma tese completamente diferente. Houve 14 preenchimento de vagas para correspondentes, mas só alguns lugares haviam sido providos através dos resultados dos concursos, por diversas razões, mas sempre por acordo entre o CA e a Direcção de Informação. Não havia um regulamento escrito do processo de concurso, que o CA havia pedido há algum tempo à Direcção de Informação, mas cuja minuta esta só lhe entregara para apreciação em Outubro passado.

Por outro lado sempre havia sido o entendimento do CA, entendimento que fora comunicado à Direcção de Informação, que os resultados dos concursos seriam sempre fornecidos em termos de apto e não apto para o lugar. O CA não julgava conveniente, para o ambiente dentro da empresa, porquanto se tratava de um concurso interno, que os resultados das apreciações do júri conduzissem a uma seriação dos candidatos. Em face dos candidatos que a Direcção de Informação considerasse aptos, o CA complementaria a escolha tendo em conta a gestão dos recursos humanos e as características do lugar em termos da representação da empresa e das tarefas administrativas e financeiras. O CA insistiu muito neste ponto. Ainda segundo o CA, o concurso para Madrid foi o primeiro em que a Direcção de Informação apresentara a lista dos resultados do concurso sob a forma de uma classificação ordenada.

Segundo foi dito por Rodrigues dos Santos, em face de não ser possível escolher o 1º classificado (por razões que não expuseram, mas sobre as quais estavam ambos de acordo), ele propôs o segundo. Entretanto o CA havia escolhido a nº 4, pelas razões aduzidas no parágrafo anterior.

Rodrigues dos Santos não abdicou da sua escolha, pois achava que ela dizia unicamente respeito à Direcção de Informação. O CA fazer escolha diversa era invadir a sua esfera de competências. Segundo ele afirmou, no caso do cargo de correspondente da RTP em Madrid, a esfera da administração era apenas a decisão sobre se aquele cargo podia existir ou não, tendo em conta as disponibilidades financeiras. O resto era da exclusiva competência da Direcção de Informação.

Para o CA a esfera de competências da Direcção de Informação acabava com a indicação dos jornalistas que considerava aptos a exercerem o cargo. A partir daí entrava-se na esfera de competência do CA. E o CA não abdicava da sua competência em gerir a empresa.

Portanto ambos concordaram que havia sido um conflito interno de competências. Quando foram inquiridos sobre as notícias que o Expresso publicou sobre uma alegada avaliação que estaria a ser feita a Rodrigues dos Santos, nenhum lhes deu importância para os factos em apreço. Ambos negaram ter havido, directa ou indirectamente, pressões políticas.

Resta acrescentar que o Conselho de Redacção da RTP não partilhou, no seu comunicado, do ponto de vista de Rodrigues dos Santos.

Os próprios deputados da oposição, embora o tivessem tentado, não viram como haviam de dar volta à questão. Almerindo Marques propôs-se explicar as razões porque entendia que não deveria haver seriação. Mas como essa explicação, pelo melindre de envolver referência a nomes de jornalistas da RTP, deveria ser feita à porta fechada, perguntou-se aos deputados se alguém requeria à mesa o prosseguimento da audição à porta fechada. Ninguém requereu.

A oposição tentou construir um cenário em que a escolha do CA seria uma tentativa para colocar Rodrigues dos Santos numa posição tal que seria forçado a pedir a demissão. Todavia este cenário não teve sustentabilidade. Em primeiro lugar a carreira de Almerindo Marques é incompatível com este tipo de jogos. Em segundo lugar, as razões aduzidas pelo CA para que o júri decidisse apenas sobre a aptidão dos jornalistas para exercerem a função parecem sólidas e consistentes. Quando Rodrigues dos Santos afirmou que "Se não consigo escolher as pessoas que acho adequadas para determinada função não posso ter responsabilidades sobre esses conteúdos", está a omitir que se considerou a nº 4 como apta, assume implicitamente que «pode ter responsabilidades sobre os seus conteúdos». Se não pudesse, tinha-a considerado não apta.

Aliás este cenário foi-se esvaziando no decorrer das audições. A alocução final de Alberto Martins do PS é a constatação da impotência para se chegar a uma base mínima que sustentasse aquele cenário. «Ambas as versões são consistentes e sólidas, embora contraditórias na questão de Madrid» reconheceu.

Por parte da coligação, Narana Coissoró tentou fazer passar a ideia que este braço de ferro por questão menor estaria integrado numa estratégia destinada a prejudicar a imagem do governo. De facto quem tomou as iniciativas quanto à ruptura foi sempre Rodrigues dos Santos: forneceu, pela primeira vez, uma lista seriada; considerou, pela 1ª vez, que as razões editoriais seriam as únicas que deveriam ser tomadas em conta; apresentou a demissão porque a sua opinião não prevaleceu; insistiu no seu pedido de demissão depois de lhe pedirem para reconsiderar.

Todavia este cenário parece-me demasiado «maquiavélico». Porque entraria Rodrigues dos Santos em choque com o CA? Que ganharia com isso? Pelos vistos foi um confronto pessoal, embora parte da Direcção de Informação se tivesse depois demitido por razões de solidariedade. Todavia o Conselho de Redacção da RTP não validou aquelas posições dos colegas e alinhou pelas teses da administração.

Na vida de uma empresa surgem frequentemente atritos que, por vezes, se vão avolumando com o tempo e levam a uma confrontação por razões menores. Rodrigues dos Santos pareceu-me um sujeito com uma forte auto-estima e muito cioso das suas opiniões. Sabe-se, pelos casos que se contam da sua vida, que Almerindo Marques é “à prova de bala”. São pois duas personalidades muito fortes. Terá sido isso? Mas porquê exactamente agora, com o governo sob o fogo da comunicação social? Será que Rodrigues dos Santos quis bater com a porta na altura em que esse bater fosse mais fragoroso por razões externas? A exemplo do que aconteceu com MRS?

Julgo que, quer no caso de Rodrigues dos Santos, como no anterior caso de Marcelo Rebelo de Sousa, só saberemos a verdade (se alguma vez a chegarmos a saber), pelos percursos futuros destes personagens. Até lá, estamos presos na caverna de Platão: só vemos as imagens reflectidas e filtradas.

Publicado por Joana às 03:01 PM | Comentários (16)

novembro 19, 2004

Regulador desregulado

O relatório da AACS é a prova de que em Portugal não é possível haver isenção e objectividade na comunicação social e nas entidades que emanam dela. A futura entidade reguladora que venha a substituir a AACS, extinta pela última revisão constitucional, por acordo do PSD, PP e PS (mas que funciona interinamente entretanto), deveria ser constituída maioritariamente por magistrados e personalidades capazes de fazer prevalecer a razão sobre a paixão. Jornalistas, ou gente oriunda da comunicação social, não deveria fazer parte desse órgão, ou ter uma representação muito diminuta e por via institucional (representantes do SJ, do patronato da CS, etc.). Ninguém é bom juiz em causa própria e, pior que isso, os jornalistas não se têm revelado como modelos de isenção.

A AACS entendeu que as declarações do ministro Rui Gomes da Silva configuravam "uma tentativa de pressão ilegítima" sobre o grupo Media Capital contrária à independência dos media "constitucional e legalmente consagrada. O relatório não refere, no entanto, qualquer relação causal entre as declarações de Rui Gomes da Silva e a saída do ex-presidente do PSD da TVI, tendo mesmo Artur Portela adiantado que esta não ficou provada com os depoimentos das três partes envolvidas prestados na AACS.

Ora se não ficou provada qualquer relação causal entre as declarações de Rui Gomes da Silva e a saída do ex-presidente do PSD da TVI, como é possível deduzir no relatório que houve uma tentativa de pressão ilegítima. Mas o que é uma tentativa de pressão? Houve pressão ou não? Por tudo isto é natural que o Presidente da AACS, um juiz conselheiro que já foi vice-presidente do STJ, tenha votado vencido contra esta «contradição nos termos».

Durante a audição de Marcelo Rebelo de Sousa, a postura subserviente da AACS, principalmente a do seu pivot Artur Portela Filho, foi aviltante. A AACS não estava ali para ajuizar das razões do professor, mas para o abraçar, comovida e pesarosa, e derramar abundantes lágrimas de compreensão, apoio e carinho no seu ombro amigo. Foi exactamente isso o que fez.

O ministro Gomes da Silva reagiu inabilmente a algo que não concordava. Fez mais ou menos (talvez um pouco mais) o que o Presidente Sampaio havia feito anos antes, relativamente ao mesmo comentador, e não me consta que o PR tenha sido acusado de "uma tentativa de pressão ilegítima", o que aliás seria igualmente absurdo. O ministro em causa tem-se notabilizado pela sua incontinência verbal. Mas o julgamento sobre essa característica inquietante do ministro faz parte da esfera da acção do 1º Ministro: ajuizar da adequação do ministro em causa ao cargo que ocupa e agir em conformidade, destituindo-o ou não, quando julgar oportuno.

Mas, na verdade, entre o ministro Gomes da Silva e a AACS não há diferença. O primeiro fala em cabala não intencional. A segunda em tentativa de pressão sem nexo de causalidade. Estão bem um para o outro.

Outra pérola: A AACS censurou expressamente o presidente da Media Capital, Paes do Amaral, considerando que a conversa que este teve com Marcelo Rebelo Sousa pode de facto "ser interpretável como condicionamento da colaboração do comentador". Considerou, por outro lado, que o presidente da Media Capital "infringiu a liberdade editorial legalmente protegida" ao conversar com Marcelo "sem a presença, a intervenção atempada ou sequer o conhecimento prévio" do director de informação da TVI, Eduardo Moniz.

O que significa "pode ser interpretável como condicionamento”? Não significa nada com substância. Pode ser ... mas também pode não ser ... Como é possível, depois desta suposição de uma outra suposição, extrair qualquer conclusão?

Ora Miguel Paes do Amaral e Marcelo Rebelo Sousa são cunhados e amigos há décadas (ou eram). Tiveram uma conversa num bar, num dia feriado. Foi uma conversa entre pessoas que eram amigas e, segundo parece, trocaram impressões, entre outras coisas, sobre o formato e conteúdo dos comentários de MRS. Mesmo que tivesse havido pressões (e resta saber como graduar uma troca de palavras – sugestão, conselho, pressão ou ultimato), nenhum tribunal as consideraria como provadas. Quanto à ausência do director de informação, ela nunca poderia ser considerada relevante, dada a relação entre MPA e MRS e o local e o dia em que o encontro ocorreu. Não pretendo com isto afirmar que houve ou não pressões. Eu não estava lá e só sei as versões que cada um tornou públicas. Há todavia um conceito, designado por benefício da dúvida, que é uma das bases do nosso direito. Mas para a AACS há benefício da dúvida apenas para uma das partes, pois para a outra há o prejuízo da dúvida.

Portanto aquela conclusão da AACS não tem fundamentação adequada. É apenas uma suposição. Ora um órgão com as responsabilidades da AACS não pode basear as suas conclusões em suposições. Por isso, a AACS sentiu-se na obrigação de não impor coimas a Paes do Amaral, alegando razões de "prudência e razoabilidade". A AACS agiu apenas como instância política e não como entidade reguladora. A aplicação de coimas cabe às entidades reguladoras, instâncias políticas fazem apenas comunicados.

Publicado por Joana às 12:00 AM | Comentários (36)

novembro 16, 2004

ANÚNCIO

Publicista em busca de afirmação procura

Empresa de Comunicação Social, de preferência estatal ou pública.

Assunto:
Indigitação, ou preferencialmente contratação, para cargo de Directora de Informação.

Oferece-se:
Desvinculação rápida, pública e ambígua.
Sigilo total, condimentado com subentendidos
Audição garantida pela AACS

Garante-se:
Excelente promoção comercial para a entidade pseudo-empregadora;
Aumento do PIB induzido pela expansão das receitas publicitárias resultantes dos acréscimos de audiências dos órgãos de comunicação social;
Manutenção dos postos de trabalho da AACS;
Aumento geral do nível de emprego induzido pelo aumento do rendimento disponível;
Oportunidade única de salvar as finanças públicas do próximo colapso;

Respostas:
Devem ser dirigidas a Semiramis (http://semiramis.weblog.com.pt) e indicar o nome da entidade interessada, as condições contratuais e comerciais e o prazo de pagamento.
No caso de se tratar de um consórcio, indicar a designação social dos consorciados – entidade contratadora, ministério das Finanças, órgãos de comunicação social associados, AACS, etc.
Em qualquer dos casos deverá ser enviada documentação sobre a situação financeira dos concorrentes, incluindo os rácios previstos na lei, nomeadamente o rácio de Solvabilidade.

Publicado por Joana às 08:59 PM | Comentários (8)

novembro 15, 2004

O Eixo dos Nulos

É angustiante. É mesmo deprimente. Não será possível encontrar um painel de portugueses, minimamente cultos, que saibam dos assuntos sobre que falam, que tenham um humor acutilante, que não temam chamar as coisas pelos nomes, que sejam satíricos sem recorrer à maledicência ignóbil, que sejam provocadores sem resvalarem para o insulto, que sejam picantes sem caírem nos ditos soezes e que não se sintam ofendidos ou menosprezados uns pelos outros?

Julgo que não é fácil. A SIC tentou há uma década e falhou. Foi a Noite da Má Língua. O programa até começou bem, mas ao fim de um ou dois meses entrou numa fase de declínio e acabou num cabotinismo total. Os primeiros painéis eram formados por gente interessante, capaz de comentários mordazes, mas lúcidos. Depois foram-se despedindo, um após outro, provavelmente por acharem que o nível do programa estava a uma cota inferior à cota que a si próprios se atribuíam e àquela que estavam convictos que o público esperaria deles. Outros, ofendidos por minudências. Todos eles substituídos por gente cada vez menos capaz, degradando o nível do programa até ao limiar do insuportável.

Agora apareceu uma tentativa de remake, designada pretensiosamente pelo Eixo do Mal, que de mal apenas tem a qualidade da intervenção dos protagonistas. Foram todos uns meninos bem comportados, absolutamente banais e totalmente previsíveis.

Sempre considerei a Clara Ferreira Alves como uma articulista especializada em textos simples, banais e lineares. Quando foi convidada para Directora do DN, pensei: porque não? O Luís Delgado escreve textos ainda mais simples e lineares e tem subido na vida. Mas depois de duas actuações da Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal, pergunto-me: Como é possível tê-la convidado para directora de um dos mais importantes jornais do país? É certo que, desta vez, foram mais lestos. Não agiram como no caso do director anterior, que só ao fim de alguns meses foi demitido por alegada incompetência. Neste caso foi demitida a priori, antes que fosse tarde demais!

Mas a Clara Ferreira Alves ainda tem traquejo de aparições televisivas – o seu incomensurável ego é-lhe de grande ajuda. Portanto consegue disfarçar as suas insuficiências. Os outros nem isso. Como é possível integrar um assessor de imprensa (e julgo que do grupo parlamentar) de um partido político num painel de comentaristas, de que se esperaria uma sátira acutilante e sem peias, sobre a vida política e social portuguesa? É certo que é assessor de um partido que se especializou em dizer mal de tudo e de todos – é o partido da má língua. Mas por muito folclórico e desbocado que seja o BE e que se julgue como um não partido, ou seja, como a encarnação do sentir dos portugueses (ou do que esses néscios deveriam sentir se não fossem ignaros), o ser-se dirigente partidário retira sempre margem de manobra ao próprio e credibilidade perante quem o escuta. Depois, o Daniel Oliveira está sempre a achar coisas – é um achista nato. O lugar dele deveria ser antes no “Acho do Mal”.

Os outros foram apenas desinteressantes, sem chama, sem opiniões que “aleijem”. Como os dois programas não passaram de um desfilar de banalidades, não havia nada para moderar. Assim sendo e dado o bom comportamento moral e civil dos colunistas (profissão que todos indicaram), o moderador remeteu-se a um mutismo quase completo. Quando era obrigado a dizer coisas, introduzir as rubricas seguintes, etc., titubeava com ar de quem estava a pedir desculpas urbi et orbi, ao painel e ao mundo.

E havia ali gente capaz de dizer coisas inconvenientes e desastradas. Por exemplo, o assessor do BE escreveu, há perto de um ano, no seu blogue (Barnabé): «A minha filha chegou-me a casa a saber o hino nacional de uma ponta à outra, sem falhas. Aprendeu na escola. Uma vergonha para mim e um orgulho para Paulo Portas. Tentei ensinar-lhe outras coisas, mais interessantes. Desisti. A música pimba sempre entrou mais facilmente no ouvido». Provavelmente foram os outros que lho imploraram, para não ficarem na contingência delicada de terem que defender Paulo Portas, o que é o cúmulo do politicamente incorrecto.

Todos eles tiveram uma característica – revelaram sempre a mais profunda e confrangedora ignorância técnica sobre os assuntos que debatiam, isto se exceptuarmos algumas matérias de índole cultural, onde a base técnica é despicienda, e por isso qualquer português, com aspirações a intelectual, está convicto de ter aí conhecimentos sólidos e firmes.

Os portugueses têm um defeito. Receiam imenso o julgamento que os outros fazem deles e melindram-se facilmente com esses julgamentos. Têm uma absoluta falta de fair-play. Esse receio torna-os cinzentos, com opiniões demasiado previsíveis, embora dentro dos estereótipos político-partidários a que cada um aderiu. Em vez do humor acutilante ou da sátira ferina, apenas a maledicência contra os outros partidos políticos ou opiniões contrárias.

O português, quer o emissor, quer o receptor, tem dificuldade em distinguir onde acaba a sátira e começa a maledicência pura. Quem opina, resvala facilmente da primeira para a segunda, sem se dar conta de tal. Aquele sobre quem se opina, entende sempre a sátira (ou a maledicência) como óbvia maledicência.

Estas características tornam muito problemático haver programas satíricos com nível, sobre a política, a sociedade e o espectáculo, em Portugal. Por exemplo, em Portugal não é possível haver um Jay Leno. Temos que nos contentar com um Herman José cada vez mais pimba e ordinário.

E seria possível em Portugal um programa como o Daily Show do Jon Stewart? Obviamente não. É um programa muito bem feito, uma sátira acutilante à política e à sociedade americanas. Jon Stewart nunca escondeu o ser um tenaz anti-Bush, mas as suas provocações, às vezes muito contundentes, são sempre bem construídas e o talento mascara e dilui a acutilância. Ele constrói cenas satíricas, que seriam consideradas excessivas entre nós, num registo que as torna aceitáveis, pois que as desdramatiza com um talento enorme. E os momentos mais altos do programa, nos meses que precederam as eleições, foram justamente as entrevistas a alguns líderes republicanos. Era difícil ajuizar o que era mais notável: se a argúcia satírica de Stewart a entrevistar, se o fair-play e a habilidade para inverter a situação evidenciados pelos entrevistados. Entrevistados que, quando ali iam, sabiam que tinham que enfrentar um interlocutor acutilante e provocador e um público desfavorável. Entrevistas em que cada um soube lidar com o humor e a sátira com total fair-play.

Por essa época, Jon Stewart foi ao talk-show de Jay Leno. Falaram sobre a campanha e Jay Leno disse a certa altura que lhe parecia estar-se a falar demasiado na guerra do Vietname. Jon Stewart respondeu mais ou menos isto: Sim, Kerry está fortemente empenhado nisso. Estou convicto que se ele ganhar as eleições, vai conseguir um acordo de paz no Vietname e fazer regressar os nossos rapazes de lá.

Manusear o humor, sem excessos que o aviltem e sem banalidades que o castrem, é o que há de mais difícil. É preciso muito espírito de humor, uma cultura sólida e uma educação extrema.

Publicado por Joana às 11:38 PM | Comentários (17)

outubro 29, 2004

O Pivot Portela

Há um equívoco monumental que percorre toda a comunicação social (e associal), toda a classe política (e impolítica), ... enfim ... todas as forças “vivas” do país. E esse equívoco é a de que houve uma audição a Marcelo Rebelo de Sousa em sede da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Ora só quem não visionou aquelas duas sublimes horas é que poderá laborar nesse lamentável lapso.

O que aconteceu, na realidade e segundo as imagens demonstram, foi um espaço de comentário televisivo onde o analista Marcelo Rebelo de Sousa e o pivot Portela filho, assessorado por pressurosos e solícitos sub-pivôs, encenaram um programa que ficará certamente na memória. Infelizmente, o horário de expediente da Alta Autoridade para a Comunicação Social impediu que esse inolvidável momento televisivo fosse para o ar em horário nobre. Assim, o público só teve ocasião de apreciar excertos dos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa. A brilhante actuação e o extraordinário brio profissional evidenciados pelo pivot Portela filho perderam-se deploravelmente pelo lastimável desencontro de horários.

E foi tanto o que o público ansioso perdeu! Sempre que Marcelo Rebelo de Sousa suspendia a sua exposição, certamente para tomar um merecido fôlego, Portela filho acorria diligente, «há reflexões sobre a comunicação social que gostaria que V.Exa partilhasse connosco» ... e Marcelo Rebelo de Sousa a partilhar ... «ocorreu-me agora o assunto X, certamente que V.Exa terá uma douta opinião sobre esta matéria» ... e Marcelo Rebelo de Sousa opinava doutamente. À direita de Marcelo Rebelo de Sousa, o Zé Garibaldi, nos intervalos em que deixava de cofiar o bigode, segredava ao Professor ... obviamente mais uma deixa para alimentar o espectáculo. Se não fosse o adiantado da hora e a senectude dos presentes, certamente chegar-se-ia ao momento em que Portela filho diria «encontrei imensa dificuldade no trânsito para chegar aqui. Seria exigir muito a V.Exa que partilhasse connosco as suas obviamente portentosas reflexões sobre o caos do trânsito citadino e os efeitos nele das obras do “Marquês”?» ... e Marcelo Rebelo de Sousa partilharia certamente ...

Foi perfeito!

Prevê-se a próxima extinção da Alta Autoridade para a Comunicação Social (apesar de Guilherme Silva ter conferido um inesperado valor àquele órgão); prevê-se uma próxima retoma da coluna de Marcelo Rebelo de Sousa. Depois do programa de anteontem, nenhum editor de TV tem qualquer outra alternativa: a próxima coluna televisiva de Marcelo Rebelo de Sousa terá obrigatoriamente como pivot Portela filho e alguns sub-pivôs indispensáveis, no mínimo, o bigode do Zé Garibaldi a ser cofiado por alguém, eventualmente pelo próprio.

Antes de ontem à noite ter visionado, na íntegra, este inesquecível momento televisivo, eu fazia uma ideia completamente diferente, e afinal abstrusa, do que era a AACS e quais os objectivos desta entidade quando efectuava aquilo que eu julgava, ingenuamente, serem audições.

Afinal a Alta Autoridade para a Comunicação Social não passa de um pivot colectivo para uma elite política fazer o seu show televisivo. Miguel Sousa Tavares, que quase chegou ao confronto físico com a Manuela Moura Guedes, deve estar roído de inveja. O sex-symbol da Lapa vai com certeza exigir a José Eduardo Moniz, agora que este está de tal forma fragilizado que o seu pivot de ontem se viu na emergência de lhe aplicar uma terapia enérgica e desesperada para lhe restaurar o ego, fazendo-lhe um panegírico sempre que se esperava que lhe fizesse uma pergunta, que o Moniz contrate Portela filho, em vez da megera, como pivot das terças-feiras.

Senão vai pedir para ser ouvido pela Alta Autoridade para a Comunicação Social, com carácter de urgência!

Publicado por Joana às 03:04 PM | Comentários (42)

outubro 28, 2004

A Vingança do Perdedor Eterno

Marcelo (por parte do pai) Rebelo de Sousa (por parte do padrinho) [ou vice-versa] andou meses a protagonizar Panurgo. Semana aqui, semana ali, lá ia mais um carneiro pela borda fora, sempre à espera que o rebanho o seguisse. Mas nada. Era exasperante. Nem alguns carneiros tresmalhados se interessavam pelas profundezas do oceano. Mas Panurgo-Marcelo é alguém cheio de expedientes. Expedientes que, para sua desdita, nunca evitaram que ele fosse um perdedor nato, mas apenas serviram para lançar lama sobre os outros. Dirigiu-se ao porão, pegou numa picareta deixada pela imprevidência de alguém, e zás! Golpeou o casco com uma violência potenciada pelos ódios acumulados e recalcados e com o engenho que sempre o celebrizou e que ele tem utilizado, com toda a dedicação, numa nobre e devotada causa – a sua.

Se o rebanho não ia ao fundo, então afundaria barco, tripulação, passageiros, todos! Todos ... menos ele. Fluctuat nec mergitur. Marcelo sempre se especializou em flutuar nos mares mais temerosos. Havia-se mesmo treinado, durante décadas, a flutuar em mares de vagas alterosas, fustigadas por ventos que ele próprio soprara. E sempre haveria barcos no horizonte que, embora em tempos queixosos dos expedientes de Panurgo-Marcelo, nesta hora não deixariam de o recolher, nem que fosse como recompensa de ter feito soçobrar o próprio barco.

Os perdedores natos, com manha suficiente para causarem danos e obterem fugazes instantes de glória, mas sem estatura política para obterem as vitórias que engrandecem, são perigosos. Quando não há estatura e sobeja a manha extremada pela ciumeira, as consequências podem ser catastróficas.

Mas deixemos a história trágico-marítima (ou cómico-terrícola). A primeira questão que coloco é se alguém acredita que Marcelo Rebelo de Sousa é pressionável ou influenciável. O próprio MRS afirmou que continuaria com o Jornal Nacional à sua disposição, e o Jornal Nacional, não se esqueça, é produzido em directo. Apenas, segundo as suas próprias afirmações, lhe teria sido pedido que fosse repensando o formato dos seus comentários.

É incompreensível que Marcelo Rebelo de Sousa abandonasse a TVI imediatamente, mantendo-se silencioso porque havia um “pacto de silêncio”, para, após semanas de especulações, fazer uma exposição repleta dos pormenores mais minuciosos e incriminativos, alegando que essa violação do “pacto” se devia a que Paes do Amaral já teria violado o pacto e atingido a sua honra, o que era falso, conforme descrevi no post anterior.

Simultaneamente houve o folhetim relativo à direcção do DN. Fernando Lima, que havia sido nomeado para o cargo, sob um coro de protestos da oposição, por ser um comissário do governo, demite-se, igualmente sob um coro de protestos da oposição(!!); fala-se na nomeação de Clara Ferreira Alves que, ao se aperceber que já circulava na comunicação social que iria ser a nova comissária política, recusa convite alegando “falta de condições”, enquanto o CR do DN considerava que «Clara Ferreira Alves não seria uma boa solução, tanto mais que desertara assim que surgiram as primeiras notícias a seu respeito». Agora foi nomeado um director interino, à espera de se sair deste imbróglio.

Não me parece por acaso estas duas ocorrência simultâneas. Vejamos o percurso de Marcelo Rebelo de Sousa nos últimos dois anos.

Marcelo Rebelo de Sousa fazia parte da facção do PSD que era contra a coligação. Todavia acabou por aceitá-la como um mal menor. Mas ao longo dos seus comentários dominicais manteve sempre uma postura muito crítica relativamente ao parceiro da coligação e ao seu líder.

A subida ao poder de Santana Lopes foi o detonador. Marcelo Rebelo de Sousa e outros membros do PSD, que haviam aceite a coligação a contra-gosto, uniram-se na crítica sistemática ao novo executivo. A coluna dominical de Marcelo Rebelo de Sousa passou a ser a principal referência crítica ao governo de Santana Lopes. Havia, é certo, críticas formalmente mais ferozes (a bocarra da Manuela Moura Guedes, por exemplo, e o terrorismo verbal de MST, também na TVI), todavia as de Marcelo Rebelo de Sousa eram mais eficazes, por serem mais bem estruturadas e por se basearem, normalmente, em factos em que a actuação do governo era discutível, ou mesmo claramente errada.

Todavia, o excesso de crítica demolidora acaba por banalizar a crítica. Essa banalização da crítica acompanhou um processo que já se arrastava há muitos meses: o espaço de comentários de MRS alongava-se excessivamente, penosamente mesmo, o que em televisão é mortífero, por muito bom comunicador que ele fosse. A homilia dominical estava a perder impacte. Por exemplo, o último comentário dominical acabou apressadamente para dar lugar à “Quinta das Celebridades”, apodada então por Marcelo, sarcasticamente, como “Quinta das Tias”. Julgo que foi a última frase que ele proferiu no seu último comentário

Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou assim as declarações ineptas de RGS, a conversa que teve com Paes do Amaral e as observações que ele lhe terá então feito, para transformar tudo numa cocktail mortífero que iria arremessar sobre o executivo de PSL e relançar o seu mediatismo. Passou displicentemente por cima do facto de se tratar de uma conversa entre amigos de há mais de 20 anos, cunhados, conversas onde não costuma haver formalismos e onde se discorre com o à vontade próprio de quem deposita confiança entre si. A questão é que Marcelo Rebelo de Sousa só tem respeito por uma pessoa: ele próprio; só tem uma ética: o seu interesse pessoal; só cumpre as promessas que faz a uma pessoa: a ele mesmo.

Portanto o que estamos a assistir é a golpes e contra-golpes palacianos dentro do PSD: os santanistas contra os anti-santanistas e vice-versa. É a luta entre a velha guarda do partido e os jovens ambiciosos que se perfilam atrás de PSL. O folhetim Marcelo, o folhetim DN, as controvérsias sobre o próximo congresso, etc., não passam de episódios "sangrentos" dessa luta.

É óbvio que não há censura. A forma como este assunto tem sido debatido, é prova disso. Quanto aos perigos com que nos acenam, eles resultam da presunção cândida de que o indústria da comunicação social é diferente das outras indústrias. Alguns ingénuos julgam que este negócio está imune ao funcionamento da economia e do mercado. Esses ingénuos julgam que os jornalistas em auto-gestão (que muitos confundem com isenção, cidadania e liberdade de expressão) deveriam prevalecer sobre os indicadores de rendibilidade. E depois, quem lhes paga os salários? Quando levarem o seu órgão comunicativo à falência, onde vão exercer a sua alegada liberdade de expressão?

Por isso nunca existiu, quer em Portugal, quer provavelmente com mais incidência, no restante mundo ocidental, jornais e canais de televisão que permaneçam independentes do poder financeiro dos grandes grupos económicos. E certamente todos já cederam às influências editoriais dos patrões. Portanto, a comunicação social vive num precário equilíbrio entre a “isenção e liberdade de expressão” e as influências que contra elas se movem: interesses económicos, interesses partidários ou os interesses dos próprios jornalistas que dificilmente podem ser caracterizados como exemplos de “isenção, cidadania e liberdade de expressão”.

E é esse equilíbrio que assegura a isenção e liberdade de expressão. Certamente estas seriam letra morta se os jornalistas fossem deixados à solta, se os interesses económicos não encontrassem obstáculos e se os interesses partidários não se neutralizassem mutuamente. É do equilíbrio entre os interesses destes três candidatos à censura que resulta a liberdade de expressão.

O resto são fait-divers ... são jogos de poder. Marcelo é apenas um dos protagonistas destes jogos. Apenas o mais manhoso. Um protagonista que pôs a oposição a correr atrás do osso que lhe mostrou e que vai agitando porque isso lhe serve os seus actuais interesses.

Publicado por Joana às 11:39 PM | Comentários (19)

outubro 27, 2004

Amigos, amigos ... Negócios à parte

Ou, com amigos destes ... o melhor é ter só inimigos

Marcelo Rebelo de Sousa e Paes do Amaral são amigos (ou melhor ... eram); são familiares (ou melhor ... vamos a ver) e tiveram uma conversa de amigos, no bar de um hotel, num dia feriado. Coisas inocentes que amigos normalmente fazem ... ou melhor, coisas que amigos inocentes normalmente fazem, porque estes nem são, afinal, amigos ... e muito menos inocentes.

Estes amigos têm uma característica comum. São pessoas conhecidas e permanentemente sujeitas ao escrutínio público. Por isso não será de admirar que um deles (Paes do Amaral) tenha pedido ao outro (Rebelo de Sousa) que considerasse aquela conversa de “amigos” como "privada", que a tratasse "com reserva" e que não divulgasse o seu teor, o que MRS prometeu fazer.

Esta conversa foi o início de uma série de ocorrências que têm feito as delícias da comunicação social: Marcelo Rebelo de Sousa abandonou a sua homilia dominical na TVI; Gomes da Silva que, entre o agendamento da reunião “amigável” e a sua realização, cometeu a imprudência de dizer o que pensava das homilias de MRS, (obviamente um crime político, pois um político nunca deve dizer o que pensa), o que lhe valeu o ter-se tornado o mau da fita e servir de punching-ball; o PR recebe MRS em audiência solene; a AACS ressuscita plena de afã e de adrenalina; audições na AACS e na AR sucedem-se ... e entre cada ocorrência, o inefável ministro Gomes da Silva em permanente incontinência verbal.

A questão central desta soap opera seria a eventual existência de pressões governamentais que teriam obrigado Miguel Paes do Amaral a pressionar por sua vez Marcelo Rebelo de Sousa no sentido deste mitigar, nos comentários na TVI, a sua «opinião sistematicamente antigovernamental».

Na sua audição na AR, Paes do Amaral disse que apenas se tratou de «uma conversa de amigos» para Marcelo o aconselhar como «jurista» sobre «temas estratégicos para a Media capital». Afirmou que a conversa constituía informação privilegiada, e que portanto não poderia divulgar o seu conteúdo. Sobre as críticas do ministro a Marcelo, o presidente da TVI disse que não as considerou «suficientemente importantes para as encarar como uma forma de pressão». À questão sobre se teria pedido um crédito à Caixa Geral de Depósitos de que necessitava até 31 de Outubro para fazer face a uma situação decorrente de uma tomada de posição hostil da RTL, Paes do Amaral negou a existência do pedido de crédito e rejeitou qualquer cedência ao poder político por razões económicas ou financeiras. Em suma, Paes do Amaral negou peremptoriamente ter sofrido quaisquer pressões, directas ou indirectas, por parte do Governo e assegurou que a Media Capital «nunca beneficiou de nenhum favorecimento político».

Marcelo Rebelo de Sousa quis que a sua audição perante a AACS tivesse toda audiência possível, o que não é de estranhar, sabendo-se o seu empenho comunicativo. Depois, como providência cautelar para justificar o ir violar a privacidade que lhe tinha sido pedida sobre a conversa em questão, alegou, com a candura que todos lhe reconhecemos, que nunca esperou que Miguel Paes do Amaral tivesse revelado a conversa entre ambos e que precipitou a sua saída da TVI. A partir dessa razão sólida, MRS falou durante duas horas sobre Paes do Amaral, a TVI, o Governo, o ministro Gomes da Silva, o 1º Ministro, a comunicação social, etc., etc..

Mas Paes do Amaral nada havia dito sobre o conteúdo da conversa, referindo apenas que não tinha a ver com os seus comentários dominicais, mas com um pedido de conselhos sobre temas estratégicos para a Media Capital, de curto e médio prazo, que não podia revelar por se tratar de “informação privilegiada", como uma "conversa de amigos". Ora isto não é “revelar uma conversa”. Mesmo a frase de que se perceberiam melhor as razões da conversa daqui a 6 ou 9 meses, Paes do Amaral sublinhou, na AR, que se estava a referir a opções estratégicas do Grupo Media Capital.

Portanto Marcelo Rebelo de Sousa deu, como razão da sua loquacidade desta tarde, uma mentira, ou melhor, como diria Paes do Amaral esta noite, uma “imprecisão”.

Marcelo Rebelo de Sousa falou muito. Desenvolveu abundantemente alegados conceitos televisivos que Paes de Amaral lhe teria revelado, antes de lhe pedir que modificasse o formato da sua coluna. Isto não é uma conversa entre amigos de há mais de vinte anos e familiares. Durante esse longo período, MRS e MPA deveriam ter ficado a saber, pormenorizadamente, o que cada um pensa da actividade dos meios áudio-visuais em Portugal e das suas relações com o poder e com os grupos económicos. Parece-me plausível que Paes do Amaral tivesse pedido a MRS para modificar o formato da coluna, mas não faz sentido ele ter feito todo aquele preâmbulo descrito por MRS. Nomeadamente sobre o papel do Estado na manutenção da concessão do serviço televisivo e dos perigos daí advenientes, o que seria completamente insensato. Parece-me ainda menos sustentável que a teoria da cabala de Gomes da Silva.

Marcelo Rebelo de Sousa deu a entender que de facto houve uma conversa sobre «temas estratégicos para a Media capital», como Paes de Amaral dissera anteriormente, mas pormenorizou que esses temas tinham a ver com modificações da política editorial e de programação que iriam abranger toda a TVI e que o próprio formato dos seus comentários deveria sofrer algumas modificações. Aliás, Paes de Amaral também referira que o consultara igualmente na qualidade de «jurista».

Portanto, o que temos aqui é uma situação em que um PDG de uma empresa tem uma conversa “de amigos” com um consultor externo, onde lhe comunica as suas intenções de modificar a orgânica empresarial, modificações que também incluíam algumas alterações na forma e conteúdo da sua prestação. Como são amigos de longa data consultou-o sobre a generalidade dos negócios sem passar pelos canais hierárquicos. Aliás, a acreditar nas declarações do “consultor externo”, essas modificações poderiam mesmo abranger alguns desses “canais hierárquicos”.

E depois o “consultor externo” vem para a praça pública dar as dicas que entende sobre o “plano de reestruturação”. Numa empresa privada “normal” isto seria matéria para litígio: o “consultor externo” revelou matéria confidencial. Mas a comunicação social tem razões que só o coração conhece. Numa empresa de comunicação social só é possível falar-se publicamente em modificações quando essa empresa já está em estado de falência técnica. Até lá impera o sacrossanto direito dos jornalistas estarem em auto-gestão. É óbvio que há modificações, mas são feitas aos poucos, com todo o recato, sem alarido prévio e, principalmente, evitando consultar um “consultor externo”, amigo de longa data e, ainda por cima, familiar.

Todavia, este caso ainda vai dar muito que falar. Marcelo Rebelo de Sousa é um velhaco que usa a sua abundante loquacidade e o sofisma argumentativo de forma magistral. Mas Miguel Paes do Amaral, pelo que mostrou na audição na AR e hoje à noite, nas declarações que fez, não lhe fica atrás em algumas daquelas características, substituindo todavia a loquacidade e os sofismas argumentativos por um discurso milimetricamente preciso. Diz